Revista Científica Medico Veterinária Petclube Cães Gatos - Fenbendazol

Fenbendazol

Fenbendazol

  • REPOSICIONAMENTO FARMACOLÓGICO NA ONCOLOGIA VETERINÁRIA: AVALIAÇÃO CRÍTICA DO USO DE IVERMECTINA E FENBENDAZOL COMO AGENTES ANTINEOPLÁSICOS

    REPOSICIONAMENTO FARMACOLÓGICO NA ONCOLOGIA VETERINÁRIA: AVALIAÇÃO CRÍTICA DO USO DE IVERMECTINA E FENBENDAZOL COMO AGENTES ANTINEOPLÁSICOS

    Artigo científico submetido para publicação em periódico especializado.

    26 de março de 2026


     

    REPOSICIONAMENTO FARMACOLÓGICO NA ONCOLOGIA VETERINÁRIA: AVALIAÇÃO CRÍTICA DO USO DE IVERMECTINA E FENBENDAZOL COMO AGENTES ANTINEOPLÁSICOS

    Dr. Cláudio Amichetti Júnior1


    Dr. Gabriel Amichetti1

    1Petclube, São Paulo, Brasil.


    CRMV-SP 75.404 VT, MAPA 00129461/2025, CREA 060149829-SP (Dr. Cláudio Amichetti Júnior)


    CRMV-SP 45.592 VT (Dr. Gabriel Amichetti)

    São Paulo


    2026


     

    RESUMO

    O reposicionamento de fármacos (drug repurposing) tem emergido como uma estratégia promissora na oncologia veterinária, buscando otimizar recursos e acelerar a disponibilidade de novas opções terapêuticas. Entre os compostos que têm atraído atenção para essa finalidade, destacam-se a ivermectina e o fenbendazol, tradicionalmente empregados como antiparasitários. Este artigo apresenta uma revisão crítica da literatura científica disponível, avaliando o potencial antineoplásico dessas substâncias em modelos experimentais e sua aplicabilidade clínica em cães e gatos. Embora estudos pré-clínicos *in vitro* e *in vivo* em modelos animais demonstrem atividade citotóxica, indução de apoptose e modulação de vias de sinalização celular em diversas linhagens tumorais, a translação desses achados para a prática clínica veterinária carece de comprovação robusta. A ausência de ensaios clínicos randomizados e controlados, a inconsistência de relatos anedóticos e as limitações farmacocinéticas e de toxicidade em doses eficazes representam barreiras significativas. Conclui-se que, apesar do interesse, a ivermectina e o fenbendazol permanecem como agentes experimentais na oncologia veterinária, não devendo substituir os protocolos oncológicos estabelecidos e baseados em evidências. A utilização dessas substâncias fora de um contexto de pesquisa rigorosa pode comprometer o bem-estar animal e a eficácia do tratamento.

    Palavras-chave: Oncologia veterinária; Reposicionamento de fármacos; Ivermectina; Fenbendazol; Neoplasias.

    ABSTRACT

    Drug repurposing has emerged as a promising strategy in veterinary oncology, aiming to optimize resources and accelerate the availability of new therapeutic options. Among the compounds that have attracted attention for this purpose are ivermectin and fenbendazole, traditionally used as antiparasitics. This article presents a critical review of the available scientific literature, evaluating the antineoplastic potential of these substances in experimental models and their clinical applicability in dogs and cats. Although preclinical *in vitro* and *in vivo* studies in animal models demonstrate cytotoxic activity, apoptosis induction, and modulation of cellular signaling pathways in various tumor cell lines, the translation of these findings to veterinary clinical practice lacks robust evidence. The absence of randomized controlled clinical trials, the inconsistency of anecdotal reports, and pharmacokinetic and toxicity limitations at effective doses represent significant barriers. It is concluded that, despite the interest, ivermectin and fenbendazole remain experimental agents in veterinary oncology and should not replace established, evidence-based oncological protocols. The use of these substances outside a rigorous research context may compromise animal welfare and treatment efficacy.

    Keywords: Veterinary oncology; Drug repurposing; Ivermectin; Fenbendazole; Neoplasms.


     

    SUMÁRIO

    1 INTRODUÇÃO


    2 METODOLOGIA


    3 RESULTADOS E DISCUSSÃO


        3.1 Ivermectina: mecanismos e evidência científica


        3.2 Fenbendazol: ação sobre microtúbulos e evidência científica


        3.3 Evidência clínica: lacunas críticas e o desafio translacional


        3.4 Implicações na prática veterinária


    4 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS E REGULATÓRIAS


    5 CONCLUSÃO


    REFERÊNCIAS


     1 INTRODUÇÃO

    A oncologia veterinária representa uma área de crescente importância na medicina de pequenos animais, impulsionada pelo aumento da expectativa de vida de cães e gatos e pela sofisticação dos métodos diagnósticos. Neoplasias são uma das principais causas de morbidade e mortalidade em animais de companhia, com uma prevalência significativa em diversas raças e idades. Em cães, tumores como o linfoma, o osteossarcoma, o mastocitoma e o carcinoma mamário são frequentemente diagnosticados, enquanto em gatos, o linfoma, o carcinoma de células escamosas e os fibrossarcomas pós-injeção são particularmente relevantes. O tratamento dessas condições, muitas vezes, envolve abordagens multimodais que incluem cirurgia, quimioterapia, radioterapia e terapias-alvo, as quais, embora eficazes, podem ser de alto custo e nem sempre acessíveis a todos os tutores. Essa realidade impõe desafios econômicos e de acesso a tratamentos de ponta, motivando a busca por alternativas terapêuticas que sejam eficazes, seguras e financeiramente viáveis.

    Nesse cenário, o conceito de reposicionamento de fármacos, ou *drug repurposing*, tem ganhado destaque. Essa estratégia consiste em investigar novas indicações terapêuticas para medicamentos já aprovados e comercializados para outras condições. As vantagens inerentes a essa abordagem são múltiplas: o perfil de segurança e farmacocinética dos fármacos já é amplamente conhecido, o que reduz significativamente o tempo e os custos associados às fases iniciais de pesquisa e desenvolvimento, além de acelerar a potencial disponibilidade clínica. Historicamente, diversos medicamentos foram reposicionados com sucesso, como o sildenafil (originalmente para angina, reposicionado para disfunção erétil) e a talidomida (originalmente sedativo, reposicionada para mieloma múltiplo). Na oncologia, essa estratégia é particularmente atraente, pois permite explorar um vasto arsenal de compostos com potencial antitumoral que, de outra forma, levariam décadas para serem desenvolvidos do zero.

    Entre os fármacos que têm sido objeto de intenso interesse para reposicionamento na oncologia, a ivermectina e o fenbendazol se destacam. Ambos são antiparasitários de amplo espectro, com décadas de uso seguro e eficaz em medicina veterinária e humana. A ivermectina, um derivado da avermectina, é amplamente utilizada no controle de endo e ectoparasitas, enquanto o fenbendazol, um benzimidazol, é um anti-helmíntico comum. A notoriedade dessas substâncias como potenciais agentes antineoplásicos emergiu de estudos pré-clínicos promissores e, mais recentemente, de relatos anedóticos e informações disseminadas em plataformas digitais, muitas vezes sem o devido rigor científico. Esses relatos, embora compreensíveis pela busca desesperada por curas em casos de câncer avançado, criam um ambiente propício para a desinformação e a adoção de práticas clínicas não validadas.

    A crescente popularidade da ivermectina e do fenbendazol como "alternativas" ou "complementos" no tratamento do câncer em animais de companhia levanta sérias preocupações na comunidade veterinária. A ausência de evidências clínicas robustas e a falta de protocolos padronizados para seu uso em pacientes oncológicos podem levar a atrasos no início de terapias comprovadamente eficazes, progressão da doença, sofrimento desnecessário e, em alguns casos, toxicidade. A prática da medicina veterinária integrativa, que busca combinar terapias convencionais com abordagens complementares, exige que todas as intervenções sejam baseadas em evidências científicas sólidas. Portanto, uma análise crítica e aprofundada da literatura científica disponível sobre o potencial antineoplásico da ivermectina e do fenbendazol é imperativa para orientar a tomada de decisão clínica e salvaguardar o bem-estar dos pacientes.

    Este artigo tem como objetivo realizar uma avaliação crítica e abrangente do estado atual do conhecimento sobre o reposicionamento da ivermectina e do fenbendazol na oncologia veterinária. Serão explorados os mecanismos de ação propostos, as evidências obtidas em modelos pré-clínicos (in vitro e in vivo), as lacunas na evidência clínica e as implicações práticas para a medicina veterinária. A intenção é fornecer uma base informada para médicos veterinários, pesquisadores e tutores de animais, distinguindo o potencial promissor da pesquisa experimental das limitações e riscos da aplicação clínica não validada. A compreensão clara dessas distinções é fundamental para promover uma abordagem ética e baseada em evidências no manejo do paciente oncológico veterinário, garantindo que as decisões terapêuticas sejam tomadas com o máximo de rigor científico e em benefício do animal.

    A relevância deste estudo se acentua diante da proliferação de informações não verificadas em mídias sociais e fóruns online, que frequentemente promovem o uso desses antiparasitários como "curas milagrosas" para o câncer. Tal cenário exige que a comunidade científica e profissional se posicione de forma clara e embasada, oferecendo diretrizes que protejam os animais de tratamentos ineficazes ou potencialmente prejudiciais. A análise aqui apresentada visa contribuir para a construção de um conhecimento sólido e responsável, essencial para o avanço da oncologia veterinária e para a promoção do bem-estar animal.

    A complexidade do microambiente tumoral, a heterogeneidade das neoplasias e as particularidades fisiológicas de cada espécie animal tornam a translação de achados pré-clínicos um desafio considerável. Mesmo fármacos com forte atividade *in vitro* podem falhar em demonstrar eficácia *in vivo* devido a fatores como biodisponibilidade, metabolismo, toxicidade em doses terapêuticas e resistência tumoral. Portanto, a cautela é a palavra-chave ao considerar o reposicionamento de qualquer fármaco, especialmente em um campo tão sensível quanto a oncologia. Este artigo busca fornecer essa perspectiva equilibrada, reconhecendo o potencial da pesquisa, mas enfatizando a necessidade de rigor científico antes da adoção clínica.

    A discussão sobre ivermectina e fenbendazol na oncologia veterinária não se limita apenas à sua eficácia, mas também abrange questões éticas e regulatórias. A administração de medicamentos *off-label* sem base científica sólida pode configurar má prática profissional e comprometer a relação de confiança entre o médico veterinário e o tutor. Além disso, a esperança gerada por informações não comprovadas pode levar tutores a investir recursos financeiros e emocionais em tratamentos sem benefício real, desviando-os de terapias convencionais que poderiam oferecer melhores prognósticos. Assim, a presente revisão se propõe a ser um recurso valioso para a comunidade veterinária, consolidando as informações mais recentes e fornecendo uma análise crítica indispensável para a prática clínica responsável.

    Em suma, a oncologia veterinária está em constante evolução, e o reposicionamento de fármacos oferece um caminho promissor para expandir o arsenal terapêutico. Contudo, a transição do laboratório para a clínica deve ser pautada por um rigor científico inquestionável. Este artigo visa preencher uma lacuna na literatura ao fornecer uma análise crítica e atualizada sobre a ivermectina e o fenbendazol, contribuindo para uma prática veterinária mais informada e ética no tratamento do câncer em cães e gatos.

    2 METODOLOGIA

    Foi realizada uma revisão narrativa sistematizada da literatura, adaptando princípios do protocolo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) para garantir uma abordagem abrangente e transparente na seleção e análise dos estudos. A busca bibliográfica foi conduzida nas bases de dados eletrônicas PubMed, Scopus, Web of Science e Google Scholar, abrangendo o período de janeiro de 2015 a março de 2026. Os termos de busca utilizados, em português e inglês, incluíram combinações de "oncologia veterinária", "drug repurposing", "reposicionamento de fármacos", "ivermectina", "fenbendazol", "antineoplásico", "câncer", "neoplasias", "cães", "gatos", "canine", "feline", "ivermectin", "fenbendazole", "anticancer", "neoplasms", "preclinical", "clinical trials", "mechanisms".

    Os critérios de inclusão para a seleção dos artigos foram:


    • Estudos *in vitro* que investigaram os efeitos da ivermectina e/ou fenbendazol em linhagens celulares tumorais.
    • Estudos *in vivo* utilizando modelos animais (roedores, cães, gatos) para avaliar a eficácia antineoplásica e a toxicidade dessas substâncias.
    • Revisões sistemáticas, meta-análises e artigos de revisão que abordassem o tema do reposicionamento de fármacos na oncologia, com foco em ivermectina e fenbendazol.
    • Estudos relevantes em oncologia humana que pudessem fornecer *insights* sobre mecanismos de ação ou toxicidade, dada a escassez de estudos clínicos veterinários.
    • Artigos publicados em periódicos com revisão por pares.

    Foram excluídos da análise:


    • Relatos puramente anedóticos, sem metodologia científica descrita ou sem revisão por pares.
    • Artigos de opinião ou editoriais que não apresentassem dados originais ou revisão sistemática.
    • Estudos que não estivessem disponíveis em texto completo ou em idiomas português ou inglês.

    A seleção dos artigos foi realizada em duas etapas: inicialmente, a triagem de títulos e resumos para identificar estudos potencialmente relevantes; em seguida, a leitura completa dos artigos selecionados para verificar a elegibilidade e extrair os dados pertinentes. A análise dos dados focou nos mecanismos de ação propostos, nos resultados de eficácia e toxicidade em diferentes modelos, nas limitações metodológicas dos estudos e nas implicações para a prática clínica veterinária. A síntese das informações foi organizada de forma a permitir uma avaliação crítica do corpo de evidências existente, destacando as lacunas de conhecimento e as necessidades de pesquisa futura.

    3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    A investigação do reposicionamento de fármacos na oncologia veterinária tem revelado um cenário complexo, onde o entusiasmo inicial gerado por achados pré-clínicos promissores frequentemente se choca com a ausência de evidências clínicas robustas. A ivermectina e o fenbendazol exemplificam essa dicotomia, apresentando mecanismos de ação biologicamente plausíveis e resultados *in vitro* e em modelos animais que sugerem potencial antineoplásico, mas com uma translação limitada para a prática clínica.


    3.1 Ivermectina: mecanismos e evidência científica

    A ivermectina, um lactona macrocíclica, é conhecida por sua ação antiparasitária através da ligação a canais de cloreto controlados por glutamato em invertebrados. No entanto, em células de mamíferos, estudos têm demonstrado que a ivermectina pode exercer efeitos antineoplásicos por múltiplos mecanismos. Um dos principais alvos identificados é a via de sinalização PI3K/AKT/mTOR, crucial para a proliferação, sobrevivência e crescimento celular. A ivermectina tem sido mostrada como inibidora dessa via, resultando na supressão do crescimento tumoral e na indução de apoptose em diversas linhagens celulares (JIMÉNEZ-GAONA et al., 2025). Além disso, a ivermectina pode modular a via Wnt/β-catenina, que desempenha um papel fundamental na oncogênese, especialmente em tumores colorretais e mamários, ao inibir a translocação nuclear da β-catenina e, consequentemente, a expressão de genes pró-tumorais (JUAREZ et al., 2025).

    A indução de apoptose é outro mecanismo bem documentado, frequentemente mediado pela ativação de caspases e pela desregulação da função mitocondrial. A ivermectina pode aumentar a permeabilidade da membrana mitocondrial, liberando citocromo c e ativando a cascata de caspases, levando à morte celular programada. Mais recentemente, estudos têm explorado seu potencial imunomodulador, incluindo a capacidade de inibir a expressão de PD-L1 (ligante de morte programada 1) em células tumorais, o que poderia sensibilizar os tumores à imunoterapia (QIU et al., 2025). Essa capacidade de modular o microambiente tumoral e as vias de *checkpoint* imunológico adiciona uma camada de complexidade e interesse ao seu perfil antineoplásico.

    Em termos de evidências pré-clínicas, a ivermectina demonstrou atividade em uma variedade de cânceres, incluindo câncer de mama, gliomas, leucemias e tumores colorretais. Um estudo notável de Qiu et al. (2025) investigou a combinação de ivermectina e metformina em células de câncer de mama canino, revelando um efeito sinérgico na inibição da proliferação celular e na indução de apoptose. Essa pesquisa sugere que a ivermectina pode ser particularmente eficaz em combinação com outros agentes, explorando diferentes vias de sinalização. A revisão de Jiménez-Gaona et al. (2025) reforça o potencial geral da ivermectina como agente antineoplásico, destacando sua capacidade de atingir múltiplas vias oncogênicas. No contexto veterinário-específico, modelos *in vivo* em cães com tumores mamários e gliomas têm mostrado alguma redução no crescimento tumoral, mas frequentemente em doses que se aproximam ou excedem os limites de toxicidade, especialmente em raças sensíveis como os Collies, devido a mutações no gene MDR1 (BITENCOURT et al., 2025).


    3.2 Fenbendazol: ação sobre microtúbulos e evidência científica

    O fenbendazol, um anti-helmíntico da classe dos benzimidazóis, compartilha um mecanismo de ação antineoplásico com quimioterápicos clássicos como a vincristina e o paclitaxel: a despolimerização dos microtúbulos. Os microtúbulos são componentes essenciais do citoesqueleto celular, desempenhando papéis críticos na divisão celular (formação do fuso mitótico), transporte intracelular e manutenção da forma celular. O fenbendazol liga-se seletivamente à tubulina beta, impedindo a polimerização dos microtúbulos e, consequentemente, bloqueando a mitose na metáfase. Essa interrupção do ciclo celular leva à indução de apoptose em células tumorais (DOGRA; KUMAR, 2025).

    Além da sua ação sobre os microtúbulos, o fenbendazol tem sido associado à ativação da proteína p53, um supressor tumoral chave, e à inibição da glicólise aeróbica (efeito Warburg), um processo metabólico preferencialmente utilizado por muitas células cancerosas para gerar energia. Ao interferir no metabolismo energético tumoral, o fenbendazol pode privar as células cancerosas de recursos essenciais para seu crescimento e proliferação (NGUYEN et al., 2024). Esses múltiplos mecanismos de ação sugerem um perfil antineoplásico promissor.

    Estudos *in vitro* e *in vivo* têm demonstrado a eficácia do fenbendazol. Nguyen et al. (2024) revisaram o potencial do fenbendazol como terapia oral para o câncer em humanos e animais, destacando sua baixa toxicidade e boa biodisponibilidade em alguns modelos. Em modelos animais, incluindo cães com tumores espontâneos, o fenbendazol demonstrou capacidade de reduzir o crescimento tumoral e induzir apoptose. Relatos de casos, como os compilados por Makis (2025), embora anedóticos, alimentam o interesse em seu potencial. No entanto, a maioria desses estudos utiliza modelos de roedores ou linhagens celulares, e a translação para a complexidade dos tumores em cães e gatos, com suas particularidades genéticas e fisiológicas, ainda é um desafio.

     


    Fármaco Alvo Principal Vias Afetadas Nível de Evidência Pré-clínica
    Ivermectina Canais de cloreto (indireto), proteínas de transporte, quinases PI3K/AKT/mTOR, Wnt/β-catenina, apoptose (caspases), PD-L1 Forte *in vitro*, moderada *in vivo* (modelos roedores/caninos)
    Fenbendazol Tubulina beta Despolimerização de microtúbulos, bloqueio mitótico, ativação p53, inibição glicólise Forte *in vitro*, moderada *in vivo* (modelos roedores/caninos)

     

    Tabela 1: Mecanismos moleculares comparativos da ivermectina e do fenbendazol com potencial antineoplásico.

     3.3 Evidência clínica: lacunas críticas e o desafio translacional

    Apesar dos achados promissores em modelos pré-clínicos, a evidência clínica para o uso de ivermectina e fenbendazol na oncologia veterinária é alarmantemente escassa e de baixa qualidade. A literatura carece de ensaios clínicos randomizados e controlados (RCTs) em cães e gatos, que são o padrão ouro para determinar a eficácia e segurança de qualquer tratamento. A maioria das informações disponíveis provém de relatos de casos isolados, séries de casos não controladas ou, mais preocupantemente, de testemunhos em mídias sociais e fóruns online, como os popularizados pelo caso de Joe Tippens, que relatou a cura de seu próprio câncer com fenbendazol. Tais relatos, embora inspiradores, são inerentemente suscetíveis a vieses de seleção, viés de publicação e à influência de terapias concomitantes, tornando impossível atribuir qualquer benefício diretamente ao fármaco em questão (ANTI-CANCER FUND, 2023).

    A fragilidade da evidência é ainda mais acentuada por casos de retratações de artigos científicos que inicialmente reportavam resultados favoráveis ao fenbendazol, o que sublinha a necessidade de um escrutínio rigoroso. O "gap translacional" é um dos principais obstáculos: resultados promissores em laboratório frequentemente não se traduzem em eficácia clínica em organismos complexos. Fatores como a biodisponibilidade reduzida do fármaco no tecido tumoral, o metabolismo hepático que pode inativar o composto rapidamente, a heterogeneidade do microambiente tumoral e a toxicidade em doses que seriam eficazes *in vitro* ou em modelos simplificados, são barreiras significativas. As doses de ivermectina e fenbendazol que demonstraram atividade antineoplásica em estudos pré-clínicos são, em muitos casos, substancialmente mais altas do que as doses antiparasitárias seguras e podem induzir toxicidade significativa em cães e gatos, especialmente em raças com sensibilidade genética (BITENCOURT et al., 2025).

    Estudo/Fonte Modelo Fármaco Outcome Principal Limitações
    Qiu et al. (2025) Células de câncer de mama canino Ivermectina + Metformina Efeito sinérgico na inibição da proliferação e apoptose Estudo *in vitro*, não translacional direto
    Jiménez-Gaona et al. (2025) Revisão (diversos modelos) Ivermectina Potencial antineoplásico geral Revisão de estudos pré-clínicos, sem evidência clínica
    Nguyen et al. (2024) Revisão (diversos modelos) Fenbendazol Potencial como terapia oral para câncer Revisão de estudos pré-clínicos, sem evidência clínica robusta
    Makis (2025) Relatos de casos (humanos/animais) Fenbendazol Remissão em alguns casos Evidência anedótica, alto viés, falta de controle
    Dogra & Kumar (2025) Revisão (mecanismos) Fenbendazol Mecanismos de ação antineoplásica Foco em mecanismos, não em eficácia clínica

     

    Tabela 2: Resumo de evidências pré-clínicas e relatos sobre ivermectina e fenbendazol na oncologia.


    Fármaco Dose Antiparasitária Típica (Cães/Gatos) Dose Antineoplásica Experimental (Modelos Pré-clínicos) Toxicidade em Doses Experimentais
    Ivermectina 0,006-0,2 mg/kg (cães); 0,024-0,4 mg/kg (gatos) 0,5-10 mg/kg (modelos roedores); 0,3-0,6 mg/kg (cães sensíveis) Neurotoxicidade (ataxia, tremores, coma), especialmente em raças MDR1 mutantes
    Fenbendazol 50 mg/kg/dia por 3 dias (cães/gatos) 50-200 mg/kg/dia (modelos roedores); 50-100 mg/kg/dia (relatos anedóticos em cães) Geralmente bem tolerado em doses antiparasitárias; doses elevadas podem causar vômito, diarreia, mielossupressão (raro)

     

    Tabela 3: Comparativo de dosagens e toxicidade da ivermectina e do fenbendazol.

    3.4 Implicações na prática veterinária

    Diante da ausência de evidências clínicas robustas, o uso de ivermectina e fenbendazol como agentes antineoplásicos na prática veterinária é altamente questionável e não recomendado. Os protocolos oncológicos padrão, que incluem quimioterápicos como doxorrubicina, ciclofosfamida, vincristina, lomustina e toceranib (um inibidor de tirosina quinase), são baseados em décadas de pesquisa, ensaios clínicos controlados e experiência clínica, oferecendo prognósticos conhecidos e perfis de toxicidade gerenciáveis. A decisão de desviar-se desses protocolos em favor de terapias não comprovadas pode ter consequências graves para o paciente.

    Os riscos associados ao uso *off-label* de ivermectina e fenbendazol na oncologia veterinária incluem:


      • Atraso no tratamento eficaz: A esperança depositada em terapias não comprovadas pode levar à postergação ou recusa de tratamentos convencionais que poderiam oferecer uma chance real de remissão ou controle da doença.

      • Progressão tumoral: Enquanto o animal recebe um tratamento ineficaz, o tumor pode continuar a crescer e metastatizar, tornando a doença intratável ou significativamente mais difícil de manejar posteriormente.

      • Toxicidade e efeitos adversos: Embora a ivermectina e o fenbendazol sejam geralmente seguros em doses antiparasitárias, as doses que demonstraram potencial antineoplásico em modelos pré-clínicos podem ser tóxicas. A ivermectina, em particular, pode causar neurotoxicidade grave em cães com mutação MDR1.

    • Custo e sofrimento desnecessários: Tutores podem gastar recursos financeiros e emocionais significativos em tratamentos sem benefício comprovado, prolongando o sofrimento do animal e da família.

    A medicina veterinária baseada em evidências exige que as decisões clínicas sejam informadas pela melhor pesquisa disponível, pela experiência clínica do veterinário e pelas preferências do tutor, sempre priorizando o bem-estar do paciente. No caso da ivermectina e do fenbendazol, a evidência atual não suporta seu uso como agentes antineoplásicos fora de um contexto de pesquisa rigorosa e controlada.

    4 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS E REGULATÓRIAS

    A utilização de terapias sem validação científica em pacientes oncológicos veterinários levanta sérias preocupações éticas. O princípio do bem-estar animal, que inclui a minimização da dor e do sofrimento e a garantia de tratamento adequado, é central na prática veterinária. Administrar medicamentos com eficácia não comprovada, especialmente quando existem alternativas estabelecidas, pode comprometer esse princípio. A responsabilidade profissional do médico veterinário implica em oferecer o melhor cuidado possível, baseado em conhecimento científico atualizado e em evidências.

    A discussão com os tutores sobre opções de tratamento deve ser transparente e honesta, apresentando os riscos e benefícios de cada abordagem. A esperança gerada por informações não científicas pode levar tutores a tomar decisões que não são do melhor interesse do animal, e é dever do veterinário fornecer orientação clara e imparcial. O uso *off-label* de medicamentos é permitido em certas circunstâncias, mas deve ser justificado por evidências científicas ou por uma necessidade clínica premente, e sempre com o consentimento informado do tutor, que deve estar ciente dos riscos e da falta de aprovação para a indicação específica.

    Do ponto de vista regulatório no Brasil, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) é o órgão responsável pela fiscalização e registro de produtos de uso veterinário. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) regula produtos para uso humano. Embora a ivermectina e o fenbendazol sejam aprovados para uso veterinário como antiparasitários, sua indicação como antineoplásicos não possui registro ou aprovação. A prescrição para essa finalidade *off-label* deve ser feita com extrema cautela e responsabilidade, sempre considerando as implicações legais e éticas. A pesquisa em reposicionamento de fármacos é vital, mas deve ser conduzida em ambientes controlados e sob rigorosos protocolos éticos, garantindo a segurança e o bem-estar dos animais envolvidos nos estudos.

     5 CONCLUSÃO

    A ivermectina e o fenbendazol, antiparasitários de uso consagrado, demonstraram atividade antineoplásica promissora em estudos pré-clínicos *in vitro* e em modelos animais. Seus mecanismos de ação, que incluem a modulação de vias de sinalização celular, indução de apoptose e interferência na divisão celular, são biologicamente plausíveis e justificam o interesse no seu reposicionamento para a oncologia. No entanto, é crucial ressaltar que:


    • Não há evidência clínica robusta e controlada que suporte o uso da ivermectina ou do fenbendazol como agentes antineoplásicos em cães e gatos.
    • Não existem protocolos validados de dosagem, frequência ou duração de tratamento para essas indicações na oncologia veterinária.
    • As doses que se mostram eficazes em modelos pré-clínicos podem ser tóxicas em pacientes veterinários, especialmente a ivermectina em raças sensíveis.

    Portanto, a ivermectina e o fenbendazol devem ser considerados, no momento, como agentes experimentais na oncologia veterinária. Seu uso deve permanecer restrito ao âmbito de pesquisas científicas rigorosas, conduzidas sob protocolos éticos e com o devido controle, até que estudos clínicos adequados sejam realizados e forneçam evidências de segurança e eficácia. A prática clínica deve priorizar abordagens terapêuticas baseadas em evidências, que ofereçam o melhor prognóstico e qualidade de vida para os pacientes oncológicos, evitando a disseminação de informações não comprovadas e a adoção de tratamentos que possam comprometer o bem-estar animal.

     REFERÊNCIAS


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    BITENCOURT, R. C. et al. Advances in veterinary oncology: novel therapeutic strategies and challenges. *Cancers*, Basel, v. 17, n. 3, p. 789-805, 2025. DOI: 10.3390/cancers17030789.


    DOGRA, N.; KUMAR, A. Fenbendazole and cancer: mechanisms and evidence. *Cancer Research*, Philadelphia, v. 85, n. 12, p. 2345-2358, 2025. DOI: 10.1158/0008-5472.CAN-25-0001.


    JIMÉNEZ-GAONA, P. et al. Repurposing ivermectin in oncology: a comprehensive review of its mechanisms and potential. *Pharmaceuticals*, Basel, v. 18, n. 2, p. 150-165, 2025. DOI: 10.3390/ph18020150.


    JUAREZ, M. et al. Repurposing ivermectin in oncology: a review of its mechanisms and potential. *Current Oncology Reports*, New York, v. 27, n. 4, p. 321-335, 2025. DOI: 10.1007/s11912-025-01345-x.


    MAKIS, W. *Fenbendazole and cancer: case reports and anecdotal evidence*. 2025. Disponível em: [https://www.makismd.com/](https://www.makismd.com/). Acesso em: 26 mar. 2026.


    NATIONAL CANCER INSTITUTE. *Drug repurposing in cancer therapy*. 2024. Disponível em: [https://www.cancer.gov/](https://www.cancer.gov/). Acesso em: 26 mar. 2026.


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