Revista Científica Medico Veterinária Instituto Petclube Cães Gatos - MIMETIZAÇÃO FARMACOLÓGICA DE ADAPTAÇÕES MOLECULARES DO EXERCÍCIO EM MEDICINA VETERINÁRIA: AGONISTAS DE RECEPTORES RELACIONADOS A ESTROGÊNIO (ERRS) SLU-PP-332 E SLU-PP-915

MEDICINA VETERINÁRIA INTEGRATIVA

MIMETIZAÇÃO FARMACOLÓGICA DE ADAPTAÇÕES MOLECULARES DO EXERCÍCIO EM MEDICINA VETERINÁRIA: AGONISTAS DE RECEPTORES RELACIONADOS A ESTROGÊNIO (ERRS) SLU-PP-332 E SLU-PP-915

Estudo sobre as perspectivas translacionais de agonistas pan-ERR na saúde metabólica e muscular de animais de companhia

20 de agosto de 2026


 

AUTOR: MV Claudio Amichetti Júnior CRMV SP 75404 VT— Especialista em Medicina Veterinária Integrativa

 

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo analisar o potencial terapêutico da mimetização farmacológica das adaptações moleculares do exercício físico na medicina veterinária, com foco nos agonistas de receptores relacionados a estrogênio (ERRs) SLU-PP-332 e SLU-PP-915. O método consistiu em uma revisão bibliográfica de estudos pré-clínicos recentes que investigam a ativação desses receptores nucleares órfãos e suas implicações metabólicas. Os resultados indicam que o SLU-PP-332 atua como um agonista pan-ERR capaz de promover a biogênese mitocondrial e a oxidação de ácidos graxos, embora apresente limitações de biodisponibilidade. Em contrapartida, o composto SLU-PP-915 demonstra eficácia superior por via oral, consolidando-se como uma evolução farmacológica para a melhora da capacidade aeróbica e mitigação de desordens metabólicas em modelos murinos. Conclui-se que, embora a intervenção farmacológica não substitua os estímulos sistêmicos complexos do exercício físico, os agonistas de ERRs representam uma fronteira promissora para o tratamento de pacientes veterinários com restrições de mobilidade, sarcopenia geriátrica e síndromes metabólicas, demandando estudos clínicos específicos para validar sua segurança e eficácia em espécies de companhia.

 

PALAVRAS-CHAVE: Mimetizadores de exercício; Receptores relacionados a estrogênio; Biogênese mitocondrial; SLU-PP-332; SLU-PP-915; Medicina veterinária integrativa.

 

ABSTRACT

This article aims to analyze the therapeutic potential of pharmacological mimicking of molecular adaptations to physical exercise in veterinary medicine, focusing on the estrogen-related receptor (ERR) agonists SLU-PP-332 and SLU-PP-915. The method consisted of a literature review of recent preclinical studies investigating the activation of these orphan nuclear receptors and their metabolic implications. Results indicate that SLU-PP-332 acts as a pan-ERR agonist capable of promoting mitochondrial biogenesis and fatty acid oxidation, although it presents bioavailability limitations. In contrast, the SLU-PP-915 compound demonstrates superior oral efficacy, establishing itself as a pharmacological evolution for improving aerobic capacity and mitigating metabolic disorders in murine models. It is concluded that, although pharmacological intervention does not replace the complex systemic stimuli of physical exercise, ERR agonists represent a promising frontier for the treatment of veterinary patients with mobility restrictions, geriatric sarcopenia, and metabolic syndromes, requiring specific clinical studies to validate their safety and efficacy in companion species.

 

KEYWORDS: Exercise mimetics; Estrogen-related receptors; Mitochondrial biogenesis; SLU-PP-332; SLU-PP-915; Integrative veterinary medicine.

 

1 INTRODUÇÃO

O exercício físico é reconhecido como um estímulo sistêmico de alta complexidade, capaz de desencadear respostas adaptativas coordenadas em diversos tecidos. Essas adaptações envolvem intrincadas redes de sinalização celular, alterações na expressão gênica e o aprimoramento da capacidade oxidativa por meio da biogênese mitocondrial e da otimização na utilização de substratos energéticos. No contexto da medicina veterinária, a manutenção de um regime de exercício adequado é frequentemente comprometida por patologias ortopédicas, cardiopatias, senescência ou limitações ambientais, resultando em atrofia muscular e disfunções metabólicas.

 

A questão científica central que emerge desse cenário é a possibilidade de ativar farmacologicamente partes específicas desse programa adaptativo, independentemente da execução do esforço físico mecânico. A busca por "mimetizadores de exercício" visa oferecer alternativas terapêuticas para pacientes incapazes de realizar atividade física suficiente para manter a homeostase metabólica. Justifica-se, portanto, a investigação de compostos que atuam sobre alvos moleculares conservados entre mamíferos, como os receptores relacionados a estrogênio (ERRs), que desempenham papel crucial na regulação energética muscular e sistêmica.

 

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 Receptores relacionados a estrogênio (ERRs): alvos moleculares

Os receptores relacionados a estrogênio (ERRα, ERRβ e ERRγ) compõem uma subfamília de receptores nucleares órfãos que, apesar da homologia estrutural com os receptores de estrogênio clássicos, não se ligam ao estradiol. Eles atuam como reguladores mestres de programas metabólicos essenciais, incluindo a biogênese mitocondrial, a fosforilação oxidativa, a oxidação de ácidos graxos e o ciclo de Krebs. A literatura destaca que os ERRs trabalham em estreita cooperação com o coativador PGC-1α, formando um eixo adaptativo fundamental para a resposta muscular ao exercício aeróbio (EVANS et al., 2025). A atividade constitutiva desses receptores é determinante para a função celular, vinculando a regulação gênica à manutenção da capacidade energética dos tecidos com alta demanda metabólica, como o músculo esquelético e o miocárdio (BIOCHIMICA ET BIOPHYSICA ACTA, 2015).

 

2.2 SLU-PP-332: o composto pioneiro

O SLU-PP-332 foi identificado como uma molécula pequena com ação agonista pan-ERR, capaz de ativar o programa de exercício aeróbico agudo em modelos experimentais. Estudos conduzidos por Billon et al. demonstraram que a administração deste composto em modelos murinos resultou em melhora significativa na performance aeróbica e no alívio de sintomas associados à síndrome metabólica e à obesidade induzida por dieta. No entanto, o SLU-PP-332 enfrenta um desafio farmacocinético crítico: sua baixíssima biodisponibilidade oral, o que limita sua aplicação clínica direta e exige o desenvolvimento de análogos com propriedades farmacológicas otimizadas (BILLON et al., PMC10801787).

 

2.3 SLU-PP-915: evolução farmacológica e biodisponibilidade oral

A evolução molecular desse processo resultou na descrição do SLU-PP-915 entre 2025 e 2026. Este novo composto foi projetado como um agonista pan-ERR com alta biodisponibilidade por via oral, superando as barreiras farmacocinéticas observadas no SLU-PP-332. O SLU-PP-915 demonstrou capacidade de aumentar a resistência aeróbica em camundongos, validando a lógica de desenvolvimento farmacológico que parte da identificação do alvo e avança para a otimização química (BILLON et al., 2025). Trabalhos recentes de Okda et al. (2026) reforçam que a otimização química desses mimetizadores permite uma compreensão mais profunda da sinalização dos ERRs, embora ainda se trate de uma fase de investigação pré-clínica.

 

2.4 Exercício como estímulo sistêmico versus mimetização farmacológica

É imperativo ressaltar que a mimetização de vias moleculares isoladas não equivale à totalidade dos benefícios do exercício físico. O exercício real envolve carga mecânica, adaptação cardiovascular, tensão muscular, remodelamento de tecidos conjuntivos (ossos e tendões), além de respostas neuroendócrinas e autonômicas complexas. A ativação farmacológica dos ERRs foca primordialmente na eficiência metabólica e mitocondrial, não sendo capaz de reproduzir, por exemplo, a função endotelial dinâmica ou o fortalecimento osteoarticular decorrente do impacto e da contração muscular. Portanto, o uso desses compostos deve ser encarado como uma terapia complementar e não substitutiva.

 

2.5 Aplicações potenciais em medicina veterinária

A conservação das vias ERR/PGC-1α entre mamíferos sugere que os resultados obtidos em modelos roedores possuem alta relevância translacional para a medicina veterinária.

 
2.5.1 Sarcopenia e fragilidade em pacientes geriátricos

Cães e gatos idosos frequentemente apresentam a síndrome da fragilidade, caracterizada pela perda progressiva de massa e função muscular. Agonistas de ERRs poderiam auxiliar na manutenção da densidade mitocondrial muscular, retardando a degeneração funcional associada à idade.

 
2.5.2 Obesidade e síndrome metabólica em pequenos animais

A obesidade felina e canina é uma epidemia que predispõe à resistência à insulina e ao diabetes mellitus tipo 2. A ativação dos ERRs promove a oxidação de gorduras, podendo atuar como um adjuvante metabólico no controle do peso e na sensibilidade insulínica.

 
2.5.3 Cardiopatias e limitações cardiovasculares

Pacientes com doença valvar degenerativa ou cardiomiopatias possuem restrições severas ao exercício. A mimetização farmacológica poderia oferecer benefícios metabólicos musculares sem sobrecarregar o sistema cardiovascular comprometido.

 
2.5.4 Reabilitação pós-cirúrgica e desuso muscular

Em casos de imobilização prolongada após cirurgias ortopédicas, a atrofia por desuso é uma complicação comum. O uso de SLU-PP-915 poderia mitigar a perda de capacidade oxidativa muscular durante o período de repouso forçado.

 
2.5.5 Animais atletas e desempenho

Para cães de trabalho ou esporte, a otimização da biogênese mitocondrial via ERRs pode representar uma via para acelerar a recuperação pós-esforço e melhorar o condicionamento aeróbico basal, sempre sob estrita supervisão ética e regulatória.

 

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os agonistas de receptores relacionados a estrogênio, notadamente o SLU-PP-915, representam uma fronteira promissora na farmacologia aplicada à medicina veterinária integrativa. Como ferramentas pré-clínicas, eles demonstram que é possível capturar adaptações metabólicas benéficas através de intervenção molecular direcionada. Contudo, a transição para o uso clínico em animais de companhia exige cautela, uma vez que a biologia sistêmica do exercício é vasta e não se limita a uma única via. O potencial desses compostos reside na sua aplicação em pacientes com limitações físicas reais, onde o exercício convencional é impossibilitado. Futuros estudos clínicos são indispensáveis para determinar a segurança a longo prazo e as dosagens ideais para as diferentes espécies veterinárias.

 

REFERÊNCIAS

BILLON, C.; APOURCHAUX, K.; CÔTÉ, I.; BURRIS, T. P. An orally active estrogen receptor-related receptor agonist, SLU-PP-915, enhances aerobic exercise capacity. Journal of Pharmacology and Experimental Therapeutics, 2025. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0022356525403000. Acesso em: 20 ago. 2026.

 

BILLON, C.; et al. A synthetic ERR agonist alleviates metabolic syndrome. Journal of Pharmacology and Experimental Therapeutics. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10801787. Acesso em: 20 ago. 2026.

 

CONSTITUTIVE activities of estrogen-related receptors: linking gene regulation to function. Biochimica et Biophysica Acta - Molecular Cell Research, 2015. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0925443915001829. Acesso em: 20 ago. 2026.

 

EVANS, R. M.; et al. Estrogen-related receptors regulate innate and adaptive muscle mitochondrial energetics through cooperative and distinct actions. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 122, n. 20, e2426179122, 2025. Disponível em: https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.2426179122. Acesso em: 20 ago. 2026.

 

EXERCISE-LIKE effects by Estrogen-related receptor-gamma in muscle do not prevent insulin resistance in db/db mice. Scientific Reports, 2016. Disponível em: https://www.nature.com/articles/srep26442. Acesso em: 20 ago. 2026.

 

OKDA, H. E.; et al. Chemical optimization of the exercise mimetic SLU-PP-332 enables insight into estrogen-related receptor signaling. 2026. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13112601. Acesso em: 20 ago. 2026.

 

DISCLAIMER: Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e científico, baseado em estudos pré-clínicos. Não constitui recomendação médica veterinária, prescrição ou incentivo ao uso de qualquer substância. Consulte sempre um médico veterinário habilitado antes de qualquer decisão terapêutica.

Claudio Amichetti Júnior Especialista em Medicina Veterinária Integrativa