Revista Científica Medico Veterinária Instituto Petclube Cães Gatos - NUTRIÇÃO CLÍNICA E SAÚDE METABÓLICA EM CÃES E GATOS: ALIMENTAÇÃO REAL, RESISTÊNCIA À INSULINA E ESTRATÉGIAS INTEGRATIVAS

MEDICINA VETERINÁRIA INTEGRATIVA & NUTRACÊUTICA CLÍNICA

NUTRIÇÃO CLÍNICA E SAÚDE METABÓLICA EM CÃES E GATOS: ALIMENTAÇÃO REAL, RESISTÊNCIA À INSULINA E ESTRATÉGIAS INTEGRATIVAS

CLINICAL NUTRITION AND METABOLIC HEALTH IN DOGS AND CATS: REAL FOOD, INSULIN RESISTANCE AND INTEGRATIVE STRATEGIES

24 de setembro de 2026


1. RESUMO / ABSTRACT

1.1 Resumo (Português)

O avanço das afecções metabólicas na rotina de clínica médica de pequenos animais reflete diretamente os padrões contemporâneos de alimentação e estilo de vida impostos às espécies canina e felina. Este artigo científico analisa criticamente a discrepância fisiológica entre dietas baseadas em alimentos frescos e balanceados biologicamente adequados e o consumo contínuo de formulações ultraprocessadas ricas em carboidratos refinados e amido extrusado. Discute-se a gênese da resistência tecidual periférica à insulina e suas repercussões orgânicas, destacando o desenvolvimento do diabetes mellitus em felinos e os distúrbios ateroscleróticos e dislipidêmicos em cães. Examina-se a imperatividade biológica do aporte de proteína animal de alto valor biológico na restauração tecidual e na homeostase de carnívoros estritos e facultativos. Ademais, abordam-se o papel do jejum orientado e da autofagia como potenciais indutores de reciclagem celular, a modulação neuroendócrina via eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, o impacto do cortisol induzido pelo estresse crônico na glicemia e a integração entre estímulo físico aeróbico e enriquecimento comportamental como pilares de uma abordagem terapêutica preventiva e funcional.

Palavras-chave: nutrição clínica; resistência à insulina; jejum intermitente; autofagia; medicina veterinária integrativa; cães e gatos.

1.2 Abstract (English)

The progression of chronic metabolic disorders in small animal veterinary practice correlates directly with contemporary dietary and management patterns. This review critically assesses the physiological divergence between species-appropriate real food diets and the chronic consumption of ultra-processed, starch-extruded diets in canine and feline medicine. We explore the pathophysiological development of peripheral insulin resistance and its clinical sequelae, particularly type 2 diabetes mellitus in obligate carnivore felines and dyslipidemia associated with obesity in canines. The biological necessity of high-quality animal proteins for structural protein turnover and cellular repair is emphasized. Furthermore, under-explored integrative paradigms such as regulated time-restricted feeding, autophagy induction, neuroendocrine stabilization of the hypothalamic-pituitary-adrenal axis, cortisol-mediated hyperglycemia, and structured aerobic exercise coupled with environmental enrichment are systematically reviewed to support a functional, evidence-aligned therapeutic framework.

Keywords: clinical nutrition; insulin resistance; intermittent fasting; autophagy; integrative veterinary medicine; dogs and cats.


2. INTRODUÇÃO / INTRODUCTION

2.1 Introdução (Português)

A incidência de obesidade, distúrbios endocrinometabólicos e sobrecargas inflamatórias de baixo grau em cães e gatos atinge proporções epidêmicas na rotina clínica mundial. O excesso de adiposidade corporal deixou de ser interpretado meramente como acúmulo passivo de triglicerídeos e passou a ser reconhecido como um estado crônico de desregulação metabólica endócrina, caracterizado pela secreção desordenada de adipocinas pró-inflamatórias (como TNF-alfa e IL-6), estresse mitocondrial e perda progressiva de sensibilidade celular aos comandos hormonais fisiológicos. Paralelamente, observa-se que a base nutricional de grande parte da população de pequenos animais apoia-se em formulações extrusadas industrialmente, concebidas com altos teores de carboidratos complexos e amiláceos que excedem a capacidade digestiva e enzimática ancestral dessas espécies carnívoras.

Nesse cenário, a medicina veterinária integrativa surge como uma convergência indispensável entre os alicerces da bioquímica nutricional, da fisiologia molecular e do manejo neurocomportamental. Compreender a modulação metabólica a partir de fontes nutricionais íntegras e específicas à biologia de carnívoros torna-se basilar para conter o avanço do diabetes mellitus tipo 2 em gatos e as repercussões de dislipidemias, artropatias mecânicas e esteatose hepática em cães. O enfrentamento assertivo dessas enfermidades exige ir além da simples contagem calórica quantitativa, priorizando a informação bioquímica intrínseca que os alimentos veiculam aos receptores celulares e o alinhamento com a cronobiologia e o bem-estar sistêmico do paciente veterinário.

2.2 Introduction (English)

The prevalence of obesity, endocrine disorders, and low-grade systemic inflammation in small animal clinical practice has reached unprecedented levels globally. Adiposity is no longer categorized as an inert reservoir for lipid storage, but rather as an active endocrine organ capable of secreting detrimental pro-inflammatory cytokines such as tumor necrosis factor-alpha (TNF-alpha) and interleukin-6 (IL-6), which perpetuate mitochondrial dysfunction and receptor desensitization. Concurrently, contemporary feeding protocols predominantly involve extruded commercial diets characterized by substantial carbohydrate fractions that challenge the natural digestive biochemistry of evolutionary carnivorous species.

Within this context, integrative veterinary medicine acts as a vital bridge connecting nutritional biochemistry, clinical metabolic endocrinology, and behavioral stress management. Investigating metabolic modulation driven by biologically appropriate whole-food nutrition is critical to reversing the rising incidence of feline type 2 diabetes mellitus and canine metabolic dysfunction, including secondary dyslipidemia, mechanical arthropathies, and hepatic lipid imbalances. Successful clinical management requires shifting from simplistic caloric restriction paradigms toward cellular signaling analysis, prioritizing nutrient bio-information, circadian synchronization, and whole-body neuroendocrine balance.


3. DESENVOLVIMENTO TÉCNICO / TECHNICAL DEVELOPMENT

3.1 Alimento Real versus Alimentos Ultraprocessados em Pequenos Animais / Real Food versus Ultra-Processed Foods in Small Animals

3.1.1 Abordagem Clínica (Português)

No consumo alimentar humano moderno, estima-se que aproximadamente 60% a 70% das calorias diárias decorram do consumo de compostos ultraprocessados. Na medicina veterinária de pequenos animais, essa porcentagem frequentemente alcança a totalidade absoluta da ingestão calórica de cães e gatos, os quais consomem exclusivamente alimentos secos extrusados desde o desmame até a senescência. A analogia analítica entre a "comida de verdade" (estruturada biologicamente a partir de compostos íntegros de origem animal e vegetal in natura) e fórmulas que se assemelham nutricionalmente a misturas artificiais ricas em calorias vazias ilustra o abismo metabólico provocado pela extrusão industrial em altas temperaturas e pressões contínuas.

A tecnologia de extrusão exige concentrações expressivas de amido e aglutinantes para alcançar o ponto de gelatinização e manter a integridade física do grão. No entanto, cães e primariamente gatos apresentam adaptações enzimáticas voltadas à metabolização de proteínas e lipídios, não possuindo amilase salivar funcional e apresentando níveis consideravelmente menores de enzimas sacarolíticas pancreáticas e intestinais quando comparados a animais onívoros estritos. O aporte persistente de rações secas com elevada carga glicêmica e petiscos ultraprocessados induz picos glicêmicos pós-prandiais frequentes, acelera a formação de produtos finais de glicação avançada (AGEs) e deflagra estresse oxidativo endotelial crônico.

3.1.2 Clinical Approach (English)

While modern human diets derive roughly 60% to 70% of total calories from ultra-processed formulations, companion carnivores often ingest nearly 100% of their lifelong caloric intake from ultra-processed extruded kibble. Drawing a clinical parallel between evolutionary whole food (structurally unadulterated meat, functional organs, and bioavailable natural matrixes) and ultra-processed matrices illustrates the biological friction induced by industrial food processing operating under extreme thermal and mechanical stresses.

Extrusion processing mandates substantial starch concentrations to facilitate grain expansion and structural cohesion. However, canine and especially feline digestive systems evolved with distinct physiological adaptations oriented around protein and fat catabolism, lacking salivary amylase and possessing restricted pancreatic and brush-border carbohydrate enzyme expression compared to obligate omnivores. The chronic administration of carbohydrate-dense extruded diets and processed treats causes continuous postprandial glycemic excursions, promotes advanced glycation end-products (AGEs), and drives oxidative microvascular stress across sensitive organ systems.


3.2 Resistência à Insulina e o Papel dos Carboidratos / Insulin Resistance and the Role of Carbohydrates

3.2.1 Fisiopatologia e Repercussões Clínicas (Português)

A cascata metabólica ativada pela ingestão repetida de carboidratos simples e amiláceos inicia-se com a hidrólise enzimática em glicose, cuja absorção entérica estimula a despolarização das células beta pancreáticas e a consequente secreção de insulina. A insulina atua como o principal hormônio anabólico e antilipolítico do organismo: ela mobiliza transportadores GLUT-4 para captação periférica, inibe a lipase hormônio-sensível (LHS) no tecido adiposo e estimula a lipogênese de novo hepática. Sob estímulo contínuo e supra-fisiológico de glicose circulante, instala-se uma resposta compensatória caracterizada por hiperinsulinemia basilar crônica.

A resistência à insulina consolida-se clinicamente como uma adaptação biológica de defesa celular: perante a saturação energética intracelular e o estresse do retículo endoplasmático, os tecidos periféricos (músculo esquelético, fígado e tecido adiposo) diminuem a fosforilação dos substratos dos receptores de insulina (IRS-1 e IRS-2), impedindo o influxo excessivo de substrato energético tóxico. Em felinos domésticos (carnívoros estritos), este mecanismo atinge gravidade extrema devido à menor flexibilidade metabólica para metabolizar sobrecargas de glicose, resultando em glicotoxicidade sobre as células beta das ilhotas de Langerhans, deposição de amiloide e rápida progressão para o diabetes mellitus tipo 2 insulinodependente secundário. Em cães, embora o diabetes autoimune e idiopático (tipo 1) seja o diagnóstico mais convencional, o quadro crônico de hiperinsulinemia decorrente da obesidade induz acentuada dislipidemia, hipertrigliceridemia, sobrecarga glomerular renal e hipertensão arterial sistêmica, reforçando que a tolerância aos carboidratos deve ser rigorosamente individualizada na prescrição médica.

3.2.2 Pathophysiology and Clinical Consequences (English)

The cascade triggered by repetitive carbohydrate ingestion begins with luminal hydrolysis to free glucose, stimulating pancreatic beta-cell depolarization and insulin secretion. As the primary anabolic and anti-lipolytic driver, insulin coordinates GLUT-4 transporter recruitment, silences hormone-sensitive lipase (HSL) within adipocytes, and upregulates hepatic de novo lipogenesis. Sustained glycemic inputs inevitably force persistent compensatory hyperinsulinemia.

Peripheral insulin resistance develops as a protective adaptive response to excessive intracellular substrate influx and endoplasmic reticulum stress. Target tissues, including skeletal muscle, liver, and adipocytes, downregulate tyrosine phosphorylation of insulin receptor substrates (IRS-1, IRS-2), thereby curtailing further glucose uptake. In obligate carnivorous felines, restricted carbohydrate adaptation accelerates glucotoxicity, leads to islet amyloid polypeptide deposition, and precipitates pancreatic beta-cell exhaustion characteristic of overt feline type 2 diabetes mellitus. In canines, while traditional type 1 diabetes is predominant, prolonged hyperinsulinemia and obesity trigger severe systemic dyslipidemia, hypertriglyceridemia, glomerular hyperfiltration, and secondary vascular hypertension. Consequently, carbohydrate tolerance must be carefully assessed on an individual patient basis.


3.3 Proteína Animal e Qualidade Nutricional / Animal Protein and Nutritional Quality

3.3.1 Bioquímica da Proteína de Origem Animal (Português)

A fisiologia evolutiva de cães e gatos consolidou-se a partir da obtenção de nutrientes estruturais e funcionais concentrados em tecidos de origem animal. Os felinos representam o expoente máximo do carnivorismo estrito, exibindo atividade enzimática hepática constitutiva e não adaptável de transaminases e desaminases que degradam aminoácidos continuamente para gliconeogênese basal, independentemente do teor proteico da dieta ingerida. A carência de síntese de novo de aminoácidos sulfurados como a taurina — essencial para conjugação de ácidos biliares, contratilidade do miocárdio e integridade retiniana — ilustra a dependência mandatória da proteína cárnea e de vísceras frescas.

Proteínas de origem animal atuam na clínica como "peças de reposição genuínas", fornecendo uma matriz equilibrada de aminoácidos essenciais (incluindo arginina, metionina, fenilalanina e leucina), peptídeos bioativos e minerais conjugados biologicamente (como zinco e ferro heme), com escores de digestibilidade significativamente superiores às fontes vegetais isoladas. A preservação da massa magra corporal é o preditor mais robusto de sobrevida e longevidade funcional em pacientes geriátricos ou com afecções crônicas. O planejamento dietético exige equilíbrio e personalização rigorosa, evitando prescrições reducionistas ou dietas hiperproteicas extremas carentes de formulação embasada nas exigências metabólicas individuais e estágios de função renal e hepática.

3.3.2 Biochemistry of Animal-Origin Proteins (English)

The physiological blueprint of canines and felines is centered on harvesting structurally complex, nutrient-dense matrices derived from prey tissues. Felines exemplify strict carnivorism, maintaining constant, unyielding activity of hepatic transaminases and deaminases directed toward baseline gluconeogenesis, regardless of immediate dietary protein concentration. Their inability to synthesize essential molecules, such as taurine (which is vital for bile acid conjugation, cardiac contraction, and retinal integrity), confirms an absolute evolutionary dependence on muscle and organ tissues.

Intact animal protein provides true biological replacement units, yielding optimal essential amino acid spectra (such as arginine, methionine, phenylalanine, and branched-chain leucine), bioactive peptides, and organically bound minerals (including heme iron and chelated zinc), which display superior digestive bioavailability over plant proteins. Preserving lean muscle mass is directly correlated with functional longevity in geriatric and chronically ill veterinary patients. Therapeutic feeding plans require balanced, evidence-based formulation rather than unbalanced dietary extremes, tailored directly to the patient's renal, hepatic, and metabolic profile.


3.4 Jejum Intermitente e Autofagia na Medicina Veterinária / Intermittent Fasting and Autophagy in Veterinary Medicine

3.4.1 Fisiologia Celular, Limites e Cuidados Clínicos (Português)

A transição do estado alimentado para o estado de pós-absorção promove um redirecionamento endócrino marcante: a supressão progressiva dos níveis basais de insulina, aliada à ascensão fisiológica do glucagon, reativa a lipólise e estimula a beta-oxidação hepática mitocondrial de ácidos graxos, gerando corpos cetônicos (como o acetoacetato e o beta-hidroxibutirato). Sob condições de esgotamento temporário de substrato glicídico exógeno, ativa-se a via da proteína quinase ativada por monofosfato de adenosina (AMPK) e silencia-se o complexo regulador celular mTOR (alvo mecânico da rapamicina), deflagrando a maquinaria celular da autofagia. A autofagia constitui um processo fisiológico de controle de qualidade citoplasmática, responsável pela fagocitose e clivagem lisossômica de organelas senescentes, agregados proteicos anômalos e agentes infecciosos intracelulares.

Na prática veterinária, no entanto, a transposição desses conceitos demanda extremo rigor clínico e diferenciação de espécies. Cães evoluíram como predadores e carniceiros oportunistas de grande plasticidade digestiva, tolerando intervalos naturais maiores entre refeições sem prejuízo metabólico agudo. Em contraste absoluto, felinos apresentam um risco metabólico iminente frente a períodos prolongados de balanço calórico negativo: a rápida mobilização periférica de ácidos graxos sem o adequado suporte de lipoproteínas hepáticas pode culminar na lipidose hepática felina, uma condição com elevada taxa de letalidade. O jejum intermitente e as janelas alimentares reduzidas devem ser interpretados como hipóteses de manejo clínico avançado e áreas de intensa pesquisa, e não como protocolos universais estabelecidos.

Alerta Clínico: O jejum prolongado NÃO é recomendado para a espécie felina em nenhuma circunstância sem monitoramento estrito, devido ao risco fatal de lipidose hepática. A conduta veterinária deve priorizar o término do fornecimento ad libitum e a definição de janelas diárias de alimentação calculadas por médico veterinário.

3.4.2 Cellular Physiology, Boundaries, and Clinical Discretion (English)

Transitioning from postprandial absorption to a fasted state triggers an endocrine shift: declining circulating insulin accompanied by compensatory glucagon secretion reactivates lipolysis, initiating mitochondrial beta-oxidation and mild ketogenesis. Depletion of exogenously derived glycolytic energy leads to adenosine monophosphate-activated protein kinase (AMPK) phosphorylation and the downstream inhibition of the mammalian target of rapamycin (mTOR) complex, initiating macroautophagy. Autophagy functions as a cytoplasmic sanitation process, directing malformed proteins, damaged organelles, and cellular debris toward lysosomal enzymatic clearance.

Within veterinary applications, this paradigm requires species-specific clinical precision. Canines evolved as opportunistic feast-and-fast scavengers possessing metabolic resilience to intermittent feeding periods. Conversely, felines are susceptible to hepatic breakdown under negative energy balances; rapid non-esterified fatty acid mobilization into hepatocytes lacking sufficient transport proteins induces life-threatening feline hepatic lipidosis. Consequently, intermittent fasting and time-restricted feeding concepts must remain research hypotheses subject to veterinary clinical oversight rather than unmonitored empirical interventions.

Clinical Warning: Prolonged fasting must NEVER be imposed upon feline patients without strict oversight due to hepatic lipidosis risks. Practical implementation must focus on ceasing ad libitum feeding regimens and instituting structured feeding intervals under clinical supervision.


3.5 Exercício, Estresse e Abordagem Holística / Exercise, Stress, and the Holistic Approach

3.5.1 Neuroendocrinologia e Manejo Integrado (Português)

A regulação da homeostase glicêmica e da sensibilidade insulínica ultrapassa o trato digestório, dependendo fundamentalmente do equilíbrio neuroendócrino orquestrado pelo eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA). Estados de estresse crônico — decorrentes de restrição de espaço, tédio ambiental, dor articular crônica não tratada ou conflitos sociais intra e interespécies — desencadeiam liberação tônica sustentada de hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) e glicocorticoides (cortisol em cães e corticosterona/cortisol em gatos). O cortisol age de forma antagonista à insulina, estimulando a gliconeogênese hepática e reduzindo a captação periférica de glicose, mantendo quadros refratários de hiperglicemia e acelerando a perda de massa magra por proteólise musculoesquelética.

A prescrição de atividade física deve ser compreendida como um fármaco fisiológico: o exercício aeróbico de intensidade moderada e contínua estimula a translocação de receptores GLUT-4 para as membranas musculares por via independente da insulina, além de atenuar picos de cortisol e melhorar a microcirculação tecidual. Treinamentos extenuantes e exaustivos geram sobrecarga musculoesquelética, microlesões inflamatórias e picos reativos de cortisol, agravando o catabolismo. Uma abordagem integrativa bem-sucedida requer a integração harmônica de três eixos fundamentais: químico (nutrição com aporte de alimento real biologicamente apropriado), estrutural (exercício dosado, fisioterapia e manejo da dor) e emocional (enriquecimento ambiental, segurança de recursos e bem-estar comportamental).

3.5.2 Neuroendocrinology and Integrated Systems Approach (English)

Whole-body insulin sensitivity depends directly on balanced neuroendocrine activity modulated by the hypothalamic-pituitary-adrenal (HPA) axis. Chronic allostatic distress—stemming from territorial confinement, lack of sensory stimulation, subclinical chronic pain, or interspecies tension—drives ongoing secretion of adrenocorticotropic hormone (ACTH) and circulating glucocorticoids. Glucocorticoids systematically counteract insulin by promoting uninhibited hepatic gluconeogenesis, downregulating peripheral glucose uptake, and driving continuous skeletal muscle proteolysis.

Prescription of physical exercise must be managed with clinical precision: moderate-intensity aerobic physical activity stimulates non-insulin-dependent GLUT-4 translocation within skeletal muscle while suppressing cortisol spikes and improving microvascular perfusion. Conversely, unmanaged exhaustive training induces musculoskeletal injury and acute cortisol spikes, worsening metabolic catabolism. A structured integrative protocol unifies three physiological pillars: chemical (species-appropriate, whole-food nutrition), structural (tailored exercise, physical rehabilitation, and proactive analgesia), and emotional (environmental enrichment, spatial security, and behavioral welfare).


4. CONCLUSÃO / CONCLUSION

4.1 Conclusão (Português)

A restauração da homeostase funcional em pequenos animais exige a revisão contínua dos modelos nutricionais que sustentam a rotina clínica contemporânea. O reconhecimento da resistência à insulina como um distúrbio subjacente comum à obesidade, à sobrecarga inflamatória e ao diabetes mellitus impõe a substituição de condutas reativas por intervenções preventivas baseadas em evidências científicas sólidas. A transição responsável para dietas de alta densidade nutricional, alicerçadas em alimentos reais, proteínas de alto valor biológico e restrição de amidos desnecessários, oferece suporte aos requisitos evolutivos de cães e gatos.

O avanço da medicina veterinária integrativa demanda a realização de estudos clínicos controlados adicionais, especialmente no que tange à caracterização das janelas de autofagia e seus reflexos metabólicos nas diferentes espécies e raças de companhia. Ao unir o rigor da bioquímica à observação dos fatores ambientais, emocionais e físicos, o médico veterinário assume o papel de arquiteto da longevidade e da qualidade de vida dos pacientes sob seus cuidados.

4.2 Conclusion (English)

Restoring biological homeostasis in small animal patients requires a re-evaluation of established nutritional practices in veterinary medicine. Recognizing peripheral insulin resistance as a primary driver of chronic inflammation, dyslipidemia, and metabolic disease demands a transition from symptomatic treatment toward evidence-based preventive care. Utilizing biologically appropriate nutrition characterized by real-food ingredients, high-quality animal proteins, and reduced processed starch inputs respects the evolutionary metabolic traits of both canines and felines.

Advancing integrative veterinary medicine requires prospective controlled clinical trials, particularly evaluating species-specific cellular autophagy pathways and long-term metabolic adaptations. By linking molecular biochemistry with structured physical rehabilitation and environmental well-being, veterinary clinicians establish a cohesive foundation for lasting health, longevity, and disease prevention in companion animals.


5. REFERÊNCIAS / REFERENCES

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  2. Brooks D, et al. 2014 AAHA Weight Management Guidelines for Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association. 2014;50(1):1-11. doi:10.5326/JAAHA-MS-6331.
  3. World Small Animal Veterinary Association (WSAVA) Global Nutrition Committee. WSAVA Nutritional Assessment Guidelines. Journal of Small Animal Practice. 2011.
  4. Verbrugghe A, Hesta M. Cats and Carbohydrates: The Carnivore Fantasy? Veterinary Sciences. 2017;4(4):55. doi:10.3390/vetsci4040055.
  5. Morris JG. Idiosyncratic nutrient requirements of cats appear to be diet-induced evolutionary adaptations. Nutrition Research Reviews. 2002;15(1). doi:10.1079/nrr200238.
  6. Patra S, McMillan CJ, Snead ER, Warren AL, Cosford K, Chelikani PK. Feline Diabetes Is Associated with Deficits in Markers of Insulin Signaling in Peripheral Tissues. International Journal of Molecular Sciences. 2024;25(23):13195. doi:10.3390/ijms252313195.
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  12. Webb CB. Hepatic lipidosis: clinical review drawn from collective effort. Journal of Feline Medicine and Surgery. 2018. doi:10.1177/1098612X18758591.
  13. Center SA. Feline Hepatic Lipidosis. Merck Veterinary Manual. 2023. Disponível em: https://www.merckvetmanual.com/digestive-system/hepatic-diseases-of-small-animals/feline-hepatic-lipidosis.

Claudio Amichetti Junior — CRMV 75404
Pós em Nutrição Animal · Pós em Farmacologia · Pós em Cannabis Medicinal

Documento elaborado em 24 de setembro de 2026.

 
 
 
 
 
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