Autores:
Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
² [Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil]
³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
Resumo Gatos domésticos (Felis catus) são carnívoros obrigatórios, cuja fisiologia e metabolismo são otimizados para a utilização de proteínas e gorduras animais. No entanto, muitas rações comerciais modernas contêm proporções elevadas de carboidratos, o que pode induzir disbiose intestinal, inflamação crônica e distúrbios metabólicos a médio e longo prazo. Este artigo revisa a fisiologia nutricional felina, as consequências da disbiose induzida por dietas ricas em carboidratos e a crescente tendência no mercado norte-americano de adoção de dietas de baixo carboidrato ou estritamente carnívoras. São analisadas as razões por trás dessa mudança, incluindo a humanização dos pets, a conscientização sobre a saúde felina e, de forma notável, a influência de médicos veterinários integrativos e de tutores com formação em nutrição. São apresentados exemplos de produtos comerciais "meat-only" e low-carb disponíveis nos Estados Unidos, com suas qualificações e posicionamento de mercado. O objetivo é fornecer uma base científica e prática para médicos veterinários e tutores na tomada de decisões nutricionais para felinos.
Palavras-chave: Gato, Carnívoro Obrigatório, Dieta Low-Carb, Disbiose, Microbioma, Rações Comerciais, Nutrição Felina.
A dieta desempenha um papel fundamental na saúde e bem-estar dos animais de estimação. Para os gatos (Felis catus), a compreensão de suas necessidades nutricionais é intrínseca à sua classificação biológica como carnívoros obrigatórios. Esta especificidade evolutiva implica que sua fisiologia digestiva e metabólica é singularmente adaptada para processar e derivar energia predominantemente de fontes animais, ricas em proteínas e gorduras, e com pouca dependência de carboidratos [1].
Contrariamente a essa adaptação fisiológica, grande parte das rações comerciais secas formuladas para gatos historicamente incorporou níveis significativos de carboidratos, frequentemente utilizados como aglutinantes e redutores de custo [2]. A exposição crônica a dietas com alto teor de carboidratos tem levantado preocupações crescentes na comunidade veterinária e entre tutores conscientes sobre a saúde felina. Evidências sugerem que tais dietas podem desestabilizar o microbioma intestinal, levando à disbiose, e contribuir para uma série de problemas de saúde, incluindo enteropatias inflamatórias, obesidade e diabetes mellitus [3,4].
No contexto norte-americano, observa-se uma forte e crescente demanda por uma alimentação felina de qualidade superior, o que tem impulsionado uma significativa transformação no mercado de pet food. Essa mudança é catalisada, em grande parte, pela ação de médicos veterinários com abordagem integrativa e funcional, que advogam por dietas mais alinhadas à biologia carnívora dos felinos, e por tutores cada vez mais informados sobre os princípios da nutrição animal [13,15]. Essa sinergia entre o conhecimento profissional e o engajamento dos proprietários tem sido crucial para desafiar o status quo das dietas convencionais, fomentando a busca por produtos que priorizem ingredientes de origem animal e baixos teores de carboidratos.
Este artigo tem como objetivo aprofundar a compreensão das implicações de dietas ricas em carboidratos na saúde felina, explorar os fundamentos fisiológicos para a adoção de dietas estritamente carnívoras ou low-carb, e analisar a crescente tendência e as opções de produtos disponíveis no mercado norte-americano que atendem a essa demanda. Serão abordadas as razões subjacentes à crescente preferência por esses tipos de alimentos e discutidas as qualificações e valores de mercado de rações comerciais específicas.
A caracterização do gato como carnívoro obrigatório não é meramente taxonômica, mas reflete profundas adaptações fisiológicas e metabólicas. O trato gastrointestinal felino é relativamente curto, o que é típico de predadores que processam alimentos altamente digestíveis e densos em nutrientes [1]. Enzimas digestivas e vias metabólicas são otimizadas para a quebra de proteínas e gorduras, com uma capacidade limitada para a digestão eficiente de grandes quantidades de carboidratos.
Necessidades nutricionais específicas de felinos incluem:
Historicamente, muitas rações secas extrusadas (kibble) para felinos contêm uma proporção significativa de carboidratos, derivados de cereais (milho, trigo, arroz), batatas, ervilhas ou lentilhas. Esses ingredientes são funcionalmente importantes no processo de extrusão para dar forma e estabilidade ao grânulo, além de serem fontes de energia e, frequentemente, de menor custo do que ingredientes de origem animal [2]. Embora os fabricantes de rações "grain-free" tenham substituído cereais por outras fontes vegetais, o teor total de carboidratos pode permanecer elevado.
A composição macronutricional da dieta é um dos principais fatores que moldam a estrutura e a função do microbioma intestinal [3]. Dietas ricas em carboidratos favorecem o crescimento de microrganismos que metabolizam carboidratos, enquanto dietas ricas em proteínas e gorduras promovem comunidades microbianas distintas, adaptadas à degradação de proteínas e aminoácidos [6]. Em gatos, a ingestão crônica de dietas com altos teores de carboidratos e fontes vegetais pode levar a alterações funcionais e taxonômicas no microbioma, caracterizadas como disbiose [3,4]. A disbiose felina tem sido associada à perda de resiliência microbiana, produção alterada de metabólitos (como a redução de butirato benéfico e o aumento de produtos proteolíticos potencialmente tóxicos), e inflamação intestinal [4,7].
As alterações induzidas pela dieta e a consequente disbiose podem ter implicações significativas na saúde felina, manifestando-se em diversas condições clínicas:
Para mitigar os riscos associados a dietas ricas em carboidratos e promover a saúde felina, a transição para dietas mais alinhadas à biologia carnívora é recomendada. Um programa nutricional baseado em ciência deve priorizar:
A última década testemunhou uma notável mudança nas preferências dos tutores de animais de estimação nos Estados Unidos em relação à alimentação felina. Essa tendência de buscar dietas de baixo carboidrato ou "carnívoras" é multifacetada e reflete um alinhamento crescente com a humanização dos pets e uma maior conscientização sobre suas necessidades biológicas [13].
Razões para a Crescente Adoção nos EUA:
O mercado norte-americano oferece diversas opções de alimentos que se alinham à filosofia de dietas ricas em proteína e baixo carboidrato. É importante notar que "carb-free" é um termo aspiracional, e "low-carb" é o que se encontra em produtos comerciais, dado que alguns ingredientes e até fibras contêm carboidratos.
7.1. Alimentos Air-Dried (Desidratados ao Ar):
7.2. Patês e Enlatados "High-Protein / Low-Carb":
7.3. Dietas Cruas Comerciais (Congeladas / Liofilizadas):
7.4. Rações Secas "Biologically Appropriate" (com ressalvas):
Observação: A estimativa precisa de carboidratos em produtos comerciais requer a análise da matéria seca e, idealmente, a subtração dos percentuais de proteína, gordura, umidade e cinzas de 100%. A alegação "grain-free" não é sinônimo de "low-carb", e a leitura atenta do rótulo é fundamental.
A crescente adoção de dietas de baixo carboidrato para felinos nos EUA reflete uma evolução na compreensão da nutrição animal, impulsionada tanto por avanços científicos quanto por mudanças culturais na relação humano-animal. A evidência fisiológica que estabelece o gato como carnívoro obrigatório serve como o pilar fundamental para justificar essa transição dietética [1]. A correlação entre dietas ricas em carboidratos, disbiose intestinal e uma série de condições inflamatórias e metabólicas em felinos é cada vez mais reconhecida e suportada pela literatura [3,4,8].
A ampla gama de produtos low-carb e "meat-only" disponíveis no mercado norte-americano demonstra a resposta da indústria a essa demanda crescente [13]. Desde alimentos air-dried, como Ziwi Peak, a patês de alta proteína como Tiki Cat e Feline Natural, até dietas cruas comerciais de marcas como Stella & Chewy's, Primal e Instinct Raw, os tutores têm cada vez mais opções alinhadas à biologia felina. No entanto, a escolha deve ser informada e criteriosa.
Riscos e Precauções: Apesar dos benefícios potenciais, a transição para dietas alternativas requer considerações importantes:
A evidência fisiológica e os estudos sobre o microbioma intestinal felino convergem para indicar que dietas com alto teor de carboidratos podem induzir disbiose, inflamação intestinal crônica e aumentar o risco de distúrbios metabólicos em gatos. A crescente tendência no mercado norte-americano de adotar dietas ricas em proteína de origem animal e baixas em carboidratos (via alimentos air-dried, úmidos de alta proteína ou dietas cruas comerciais) é uma resposta embasada nessa compreensão da biologia felina. Tal movimento é significativamente impulsionado pela demanda consciente de tutores com formação em nutrição e pelo aconselhamento de médicos veterinários integrativos, que estão remodelando as expectativas e ofertas do mercado.
A escolha de uma dieta "biologicamente apropriada" é um passo significativo para otimizar a saúde felina. Contudo, a transição e a seleção do produto devem ser realizadas com apoio veterinário qualificado, garantindo o balanço nutricional, a segurança microbiológica e a individualização para as necessidades específicas de cada paciente. A educação contínua de tutores e profissionais sobre esses princípios é fundamental para o bem-estar dos felinos.
PETCLUBE MEDICINA VETERINÁRIA E ZOOTECNIA
MEDICINA VETERINÁRIA INTEGRATIVA PARA CÃES E GATOS: UMA ABORDAGEM SISTÊMICA NA PROMOÇÃO DA HOMEOSTASE
Artigo Científico de Revisão e Atualização Clínica
20 de julho de 2026
AUTORES E SUPERVISÃO TÉCNICA
Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,² — Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Engenheiro Agrônomo). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
Gabriel Amichetti³ — Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.
Afiliações:
¹ Petclube, São Paulo, Brasil
²
³ Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil
Autor correspondente: Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
Conflito de interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Periódico: Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal
Supervisão Técnica: Gabriel Amichetti – Médico-veterinário, Especialista em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais.
RESUMO A Medicina Veterinária Integrativa (MVI) emerge como uma resposta à crescente complexidade das patologias crônicas em pequenos animais, unindo a medicina convencional a terapias complementares baseadas em evidências. O objetivo deste artigo é analisar os pilares da MVI, focando na promoção da homeostase em cães e gatos através de uma visão sistêmica. A metodologia consistiu em revisão bibliográfica de estudos recentes sobre nutrição funcional, modulação do microbioma, uso de peptídeos bioativos e cannabis medicinal. Os resultados indicam que a abordagem multimodal, que considera a individualidade bioquímica e o eixo intestino-imunidade, apresenta maior eficácia no manejo de doenças crônicas não transmissíveis, como a doença renal crônica, osteoartrites e distúrbios autoimunes. Conclui-se que a integração de ferramentas terapêuticas avançadas potencializa a recuperação clínica e a qualidade de vida, consolidando a MVI como uma evolução necessária na prática clínica contemporânea.
Palavras-chave: Medicina Veterinária Integrativa. Homeostase. Microbioma. Peptídeos. Cannabis Medicinal.
ABSTRACT Integrative Veterinary Medicine (IVM) emerges as a response to the increasing complexity of chronic pathologies in small animals, combining conventional medicine with evidence-based complementary therapies. The objective of this article is to analyze the pillars of IVM, focusing on the promotion of homeostasis in dogs and cats through a systemic view. The methodology consisted of a literature review of recent studies on functional nutrition, microbiome modulation, use of bioactive peptides, and medicinal cannabis. The results indicate that the multimodal approach, which considers biochemical individuality and the gut-immunity axis, is more effective in managing chronic non-communicable diseases, such as chronic kidney disease, osteoarthritis, and autoimmune disorders. It is concluded that the integration of advanced therapeutic tools enhances clinical recovery and quality of life, consolidating IVM as a necessary evolution in contemporary clinical practice.
Keywords: Integrative Veterinary Medicine. Homeostasis. Microbiome. Peptides. Medical Cannabis.
A medicina veterinária moderna atravessa um período de transição paradigmática, impulsionado tanto pelo avanço tecnológico quanto pela mudança na percepção dos tutores em relação ao bem-estar animal. A crescente demanda por abordagens integrativas reflete a busca por soluções que transcendam o mero controle sintomático, focando na resolução das causas radiculares das patologias. A Medicina Veterinária Integrativa (MVI) define-se como a convergência estratégica entre a medicina alopática convencional e terapias complementares validadas cientificamente, operando sob o conceito fundamental de homeostase — o equilíbrio dinâmico dos sistemas biológicos frente às agressões internas e externas.
O cenário epidemiológico atual de cães e gatos revela um aumento significativo na prevalência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). Fatores como a industrialização alimentar, o sedentarismo e a exposição a poluentes ambientais contribuem para o surgimento precoce de obesidade, diabetes mellitus, doenças autoimunes, alergias persistentes e degenerações musculoesqueléticas. Diante deste quadro, a abordagem reducionista, que isola o órgão enfermo do restante do organismo, demonstra limitações severas, especialmente em pacientes geriátricos ou com comorbidades complexas.
A necessidade de uma visão sistêmica justifica-se pela interconectividade dos sistemas fisiológicos, onde o estado emocional e o ambiente do animal exercem influência direta sobre sua resposta imunológica e metabólica. Este artigo objetiva explorar os fundamentos e as ferramentas terapêuticas da MVI, como a modulação intestinal, o uso de peptídeos regenerativos e a cannabis medicinal, demonstrando como a personalização do tratamento pode conduzir a resultados clínicos superiores e à longevidade sustentável dos pacientes.
Os alicerces da MVI repousam sobre o chamado "triângulo da saúde", que compreende a nutrição de precisão, o manejo ambiental e o equilíbrio neuroendócrino. Diferente da abordagem convencional, que frequentemente se concentra na supressão de sintomas através de fármacos de ação rápida, a medicina sistêmica busca identificar os desequilíbrios bioquímicos que precedem a manifestação clínica da doença. A individualidade bioquímica é respeitada, reconhecendo que dois animais com o mesmo diagnóstico podem exigir protocolos distintos baseados em sua genética, histórico de vida e estado do microbioma.
O papel do microbioma intestinal consolidou-se como o eixo central da saúde sistêmica. Pesquisas recentes demonstram que a barreira intestinal não é apenas um local de absorção de nutrientes, mas o principal órgão imunológico do corpo. O eixo intestino-cérebro e o eixo intestino-imunidade explicam como a disbiose pode desencadear desde distúrbios comportamentais até inflamações sistêmicas de baixo grau. Na MVI, a restauração da eubiose é considerada o primeiro passo para qualquer intervenção terapêutica, visando reduzir a carga antigênica e a translocação bacteriana.
É imperativo ressaltar que a medicina integrativa não se posiciona como um substituto à medicina convencional, mas como um complemento que amplia o arsenal do médico veterinário. A utilização de exames laboratoriais avançados, diagnóstico por imagem e intervenções cirúrgicas permanece essencial. Contudo, a integração de terapias que estimulam os mecanismos de autorregulação do organismo permite uma redução na dependência de medicamentos com efeitos colaterais significativos, como corticosteroides e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), promovendo uma cura mais profunda e duradoura.
A nutrição na MVI é encarada como a ferramenta terapêutica primária e contínua. A transição para dietas biologicamente apropriadas (species-appropriate), ricas em proteínas de alto valor biológico e com baixo índice glicêmico, visa respeitar a fisiologia de carnívoros facultativos (cães) e carnívoros estritos (gatos). O controle da carga inflamatória da dieta é crucial para mitigar a ativação constante do sistema imune inato, prevenindo o desenvolvimento de sensibilidades alimentares e doenças inflamatórias intestinais (DII).
O manejo da disbiose intestinal envolve o uso estratégico de probióticos multicepas, prebióticos (como FOS e GOS) e enzimas digestivas que auxiliam na quebra eficiente de macromoléculas. A integridade da barreira intestinal, mantida por aminoácidos como a glutamina e ácidos graxos de cadeia curta, é a primeira linha de defesa contra a síndrome do intestino permeável (leaky gut). Ao selar as tight junctions do epitélio intestinal, impede-se que toxinas e fragmentos bacterianos alcancem a circulação sistêmica, o que é fundamental no tratamento de doenças autoimunes e dermatites atópicas.
A suplementação na medicina integrativa utiliza nutracêuticos com alto embasamento científico para modular vias metabólicas específicas. O uso de ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA) em doses terapêuticas é amplamente documentado por sua ação anti-inflamatória e neuroprotetora. Compostos como a curcumina (em formas de alta biodisponibilidade), a silimarina para suporte hepático e a N-acetilcisteína como precursor de glutationa, atuam no combate ao estresse oxidativo, um denominador comum em quase todas as patologias degenerativas.
A fitoterapia veterinária, quando aplicada com rigor técnico, oferece alternativas eficazes para o controle de ansiedade, suporte imunológico e manejo de dores crônicas. O uso de adaptógenos, como a Ashwagandha e o Panax ginseng, auxilia o animal a lidar com o estresse crônico, regulando o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA). É fundamental que a prescrição desses compostos considere as particularidades metabólicas de cada espécie, especialmente a sensibilidade hepática dos felinos a certos compostos fenólicos.
A introdução de peptídeos bioativos representa a fronteira da medicina regenerativa veterinária. Compostos como o BPC-157 (Body Protection Compound) e a Timosina Beta-4 (TB-500) têm demonstrado resultados promissores na aceleração do reparo tecidual e na modulação da angiogênese. O BPC-157, em particular, destaca-se por sua capacidade de promover a cicatrização de úlceras gástricas e lesões tendíneas, agindo através da regulação positiva de receptores de fatores de crescimento.
A Timosina Alfa-1 atua como um potente imunomodulador, auxiliando na recalibração das células T reguladoras, o que é vital em quadros de imunodeficiência ou em doenças onde o sistema imune ataca o próprio organismo. Esses peptídeos oferecem uma via de tratamento com alta especificidade e baixo perfil de toxicidade, uma vez que são sequências de aminoácidos que mimetizam moléculas sinalizadoras naturais do corpo. Sua aplicação clínica estende-se desde o suporte em pós-operatórios complexos até o manejo de doenças inflamatórias multissistêmicas.
O Sistema Endocanabinoide (SEC) é um sistema de sinalização lipídica onipresente em mamíferos, responsável por manter a homeostase em diversos processos fisiológicos, incluindo dor, memória, apetite e resposta imune. A utilização de fitocanabinoides, como o CBD e o THC, permite a modulação dos receptores CB1 (predominantes no sistema nervoso central) e CB2 (frequentes em células imunes). Em cães, a densidade de receptores CB1 no cerebelo é superior à de humanos, o que exige cautela e precisão na dosagem de THC para evitar quadros de ataxia.
As aplicações clínicas da cannabis medicinal na veterinária são vastas, com evidências robustas no controle da dor crônica osteoarticular e na redução da frequência de crises em epilepsias refratárias. Além disso, o potencial antitumoral e paliativo em pacientes oncológicos melhora significativamente o apetite e o bem-estar geral. No Brasil, embora a legislação ainda esteja em evolução, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) e decisões judiciais recentes têm amparado a prescrição por médicos veterinários habilitados, desde que seguidos os critérios éticos e técnicos de segurança.
A aplicação prática da MVI pode ser observada em diversos sistemas orgânicos. No sistema gastrointestinal, o tratamento de gastrites crônicas e pancreatites deixa de ser focado apenas em antiácidos e passa a incluir a reparação da mucosa com peptídeos e a modulação da microbiota. No sistema musculoesquelético, o manejo da osteoartrite e da displasia coxofemoral torna-se multimodal, combinando condroprotetores, cannabis para analgesia e fisioterapia, visando preservar a mobilidade e reduzir a carga de AINEs que poderiam comprometer a função renal a longo prazo.
Em pacientes neurológicos, especialmente geriatras com síndrome de disfunção cognitiva, a abordagem integrativa utiliza antioxidantes mitocondriais e canabinoides para reduzir a neuroinflamação. No sistema imunológico, o foco é a imunomodulação em vez da imunossupressão severa, buscando o equilíbrio em casos de dermatites alérgicas e lúpus eritematoso. O suporte ao paciente geriátrico é, talvez, onde a MVI brilha com maior intensidade, oferecendo uma abordagem de "cuidados de conforto" que prioriza a dignidade e a ausência de dor através de suporte renal, hepático e nutricional personalizado.
Apesar dos avanços, a MVI enfrenta desafios significativos para sua plena aceitação. A necessidade de mais estudos clínicos randomizados, controlados e em larga escala com populações animais é urgente para consolidar as dosagens e protocolos de segurança de novas terapias, como os peptídeos. Existe ainda uma resistência natural por parte de setores da comunidade acadêmica tradicional, que muitas vezes confunde práticas integrativas baseadas em evidências com pseudociência, o que demanda um esforço contínuo de educação e publicação de resultados clínicos mensuráveis.
A formação profissional também precisa ser atualizada, integrando conceitos de bioquímica nutricional e farmacologia natural nas grades curriculares de graduação. A regulamentação e a padronização da qualidade dos produtos (especialmente fitoterápicos e canabinoides) são essenciais para garantir a segurança do paciente. O futuro, no entanto, é promissor; a medicina de precisão, que utiliza testes genéticos e metabolômicos para guiar o tratamento, está se tornando cada vez mais acessível, permitindo que a medicina veterinária alcance níveis de personalização sem precedentes.
A Medicina Veterinária Integrativa representa a evolução natural da prática clínica, movendo-se de um modelo focado na doença para um modelo focado na saúde e na resiliência biológica. Ao unir o rigor científico da medicina convencional com a profundidade terapêutica das abordagens sistêmicas, o médico veterinário torna-se capaz de oferecer soluções mais humanas, eficazes e personalizadas. O equilíbrio entre a tecnologia de ponta e o respeito à individualidade bioquímica e emocional do animal é o único caminho viável para enfrentar o aumento das doenças crônicas na população de pets.
Em suma, a promoção da homeostase através da nutrição funcional, modulação do microbioma e uso de terapias avançadas como canabinoides e peptídeos, não apenas prolonga a vida, mas garante que essa longevidade seja acompanhada de qualidade. A próxima década deverá consolidar a MVI como o padrão ouro de atendimento, onde a ciência e a visão holística caminham juntas em benefício do bem-estar animal e da satisfação dos tutores.
ALMEIDA, R. V. Nutrição Clínica de Cães e Gatos: Princípios e Práticas Integrativas. 2. ed. São Paulo: Editora Acadêmica, 2024.
BARROS, L. F. Sistema Endocanabinoide em Mamíferos: Fisiologia e Aplicações Terapêuticas na Veterinária. Revista Brasileira de Ciência Veterinária, v. 31, n. 2, p. 45-58, 2025.
FERREIRA, M. A. Peptídeos Bioativos e Regeneração Tecidual: O Futuro da Medicina Veterinária. Jornal de Terapias Avançadas, Curitiba, v. 12, n. 4, p. 112-125, 2026.
GOMES, J. S. Microbioma Intestinal e o Eixo Intestino-Cérebro em Pequenos Animais. Rio de Janeiro: Intermédica, 2023.
MARTINS, C. P. Abordagem Integrativa na Doença Renal Crônica em Felinos. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária, v. 78, n. 1, p. 89-104, 2024.
OLIVEIRA, T. R. Fitoterapia Veterinária Baseada em Evidências. Porto Alegre: Artmed, 2025.
SILVA, A. C. Homeostase e Inflamação de Baixo Grau: O Desafio das Doenças Crônicas em Pets. Revista de Patologia Comparada, v. 19, n. 3, p. 210-222, 2023.
SOUZA, E. L. Uso de Canabidiol no Controle da Epilepsia Refratária em Cães: Estudo Retrospectivo. Veterinária e Zootecnia em Foco, v. 15, n. 2, p. 33-47, 2025.
Documento elaborado em 20 de julho de 2026. As informações contidas são de responsabilidade do solicitante.
A compreensão das doenças autoimunes em cães e gatos exige uma análise profunda do mimetismo molecular e da quebra da autotolerância. Na medicina integrativa, postula-se que a exposição crônica a antígenos alimentares mal digeridos, somada a adjuvantes ambientais, pode induzir uma resposta imune cruzada, onde o sistema imunológico passa a atacar epítopos próprios que assemelham-se a estruturas patogênicas. Este fenômeno é frequentemente observado em casos de tireoidite autoimune e pênfigo foliáceo, onde a barreira hematoencefálica ou cutânea encontra-se comprometida por processos inflamatórios prévios.
O tratamento convencional, baseado quase exclusivamente na imunossupressão via glicocorticoides ou ciclosporina, embora eficaz na remissão aguda, falha em abordar a causa da hiper-reatividade. A abordagem sistêmica propõe a "recalibragem" do sistema imune através da remoção de gatilhos inflamatórios (dietas ultraprocessadas e alérgenos ambientais) e da introdução de agentes que favorecem a diferenciação de linfócitos T reguladores (Tregs). A estabilização da membrana celular e a redução da produção de citocinas pró-inflamatórias, como o TNF-alfa e a IL-6, são fundamentais para interromper o ciclo de autodestruição tecidual.
A Timosina Alfa-1 (Tα1) destaca-se na MVI como um peptídeo pleiotrópico derivado da glândula timo, essencial para a maturação e funcionalidade dos linfócitos. Em pacientes com doenças autoimunes ou infecções virais crônicas (como FIV e FeLV em felinos), a Tα1 atua aumentando a atividade das células natural killer (NK) e modulando a liberação de citocinas de acordo com o estado do hospedeiro. Sua capacidade de induzir a expressão de IL-10, uma citocina anti-inflamatória, auxilia na restauração da tolerância imunológica sem causar a supressão generalizada que predispõe o animal a infecções oportunistas.
O reparo de tecidos moles e a regeneração de mucosas são pilares onde a MVI utiliza os peptídeos BPC-157 e Timosina Beta-4 (TB-500) de forma sinérgica. O BPC-157, um pentadecapeptídeo isolado do suco gástrico humano, possui uma notável estabilidade e capacidade de promover a angiogênese através da modulação da via do VEGFR2. Em cães com doença inflamatória intestinal ou gastrites erosivas crônicas, o BPC-157 atua como um agente citoprotetor, acelerando a reepitelização e fortalecendo as junções intercelulares, o que é vital para reverter a permeabilidade intestinal aumentada.
O Sistema Endocanabinoide (SEC) atua como um "termostato" biológico, regulando a liberação de neurotransmissores e a excitabilidade neuronal. Em cães e gatos, a distribuição dos receptores CB1 e CB2 segue padrões específicos que ditam a resposta terapêutica. O uso de extratos de Cannabis sativa de espectro completo (full spectrum) é preferível na MVIdevido ao "efeito comitiva" (entourage effect), onde terpenos, flavonoides e canabinoides menores potencializam a ação do CBD e modulam os efeitos psicotrópicos do THC.
A prescrição de cannabis medicinal por médicos veterinários no Brasil é um tema de intensa evolução jurídica e ética. Embora o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e a ANVISA ainda possuam lacunas regulatórias específicas para o uso veterinário, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) tem se posicionado favoravelmente à autonomia do profissional, desde que a prescrição seja fundamentada em evidências científicas e para fins estritamente terapêuticos.
A medicina de precisão na veterinária integrativa utiliza ferramentas de ômicas para mapear o perfil genético e metabólico individual do animal. Testes genéticos que identificam polimorfismos em genes de desintoxicação hepática ou predisposições a cardiomiopatias permitem que o clínico intervenha preventivamente, anos antes da manifestação fenotípica da doença. A metabolômica, por sua vez, oferece um "retrato" em tempo real do estado metabólico, identificando deficiências nutricionais subclínicas.
A MVI está intrinsecamente ligada ao conceito de Saúde Única (One Health), reconhecendo que a saúde dos animais, dos seres humanos e do ecossistema é interdependente. A redução do uso indiscriminado de antibióticos na clínica de pequenos animais, substituindo-os por moduladores do sistema imune e probióticos quando apropriado, é uma contribuição direta para o combate à resistência antimicrobiana global.
Documento elaborado em 20 de julho de 2026.
DISCLAIMER E SUPERVISÃO TÉCNICA
Este documento constitui uma análise técnico-científica independente. As informações aqui contidas são baseadas em evidências científicas disponíveis até a data de publicação e não substituem a avaliação clínica individualizada por médico-veterinário habilitado. RESPEITANDO AS NORMAS E INSTITUIÇÕES REGULATÓRIAS DE CADA PAIS Não fazemos protocolos fechados — nosso compromisso é com a informação de qualidade, a ciência e o bem-estar animal.
Agradecimentos: Os autores agradecem à equipe técnica da Petclube e ao corpo clínico da Clínica 3RD pelo suporte
REVISTA CIENTÍFICA PETCLUBE
Título Curto: Dieta, Microbioma e Saúde em Cães e Gatos
Autores:
Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
² [Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil]
³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
A saúde de cães e gatos é intrinsecamente ligada ao seu microbioma intestinal, um ecossistema complexo que detém um "metagenoma" bacteriano exponencialmente maior que o genoma do hospedeiro. Este artigo discute a disparidade genética entre hospedeiros (aproximadamente 19.000-21.000 genes codificadores) e sua microbiota intestinal (500.000-2.000.000 de genes bacterianos), ressaltando a predominância da capacidade metabólica microbiana na fisiologia animal. Exploramos como a dieta atua como principal modulador do microbioma, contrastando os efeitos de dietas diversificadas e nutricionalmente completas, que promovem a eubiose, com regimes monótonos e restritivos (incluindo dietas sem carne baseadas exclusivamente em ração), que podem induzir à disbiose. A eubiose, caracterizada por alta diversidade e produção de ácidos graxos de cadeia curta, confere saúde metabólica e imunológica. Por outro lado, a disbiose está associada a inflamação crônica e susceptibilidade a uma gama de patologias. A compreensão e o manejo dietético do microbioma são, portanto, cruciais para otimizar o bem-estar e prevenir doenças em cães e gatos.
Palavras-chave: Microbioma, Metagenoma, Eubiose, Disbiose, Dieta, Cães, Gatos, Nutrição Veterinária.
A compreensão da biologia de cães (Canis lupus familiaris) e gatos (Felis catus) tem evoluído substancialmente nas últimas décadas, transcendo a mera análise de seu genoma nuclear. Atualmente, reconhece-se que a saúde e a fisiologia desses animais são profundamente influenciadas por um "órgão" invisível e dinâmico: o microbioma intestinal (Handl et al., 2011). Este vasto e complexo ecossistema de microrganismos, predominantemente bactérias, coexiste e interage simbioticamente com o hospedeiro, desempenhando funções vitais que vão desde a digestão e absorção de nutrientes até a modulação do sistema imunológico e a proteção contra patógenos (Honneffer, Minamoto & Suchodolski, 2014).
A disparidade genética entre o hospedeiro e sua comunidade microbiana é notável. Enquanto o genoma do gato doméstico contém aproximadamente 19.000–20.000 genes codificadores (Pontius et al., 2007; Montague et al., 2014) e o do cão varia entre 19.000–21.000 genes codificadores (Lindblad-Toh et al., 2005; Hoeppner et al., 2014), o "metagenoma" bacteriano intestinal pode abrigar entre 500.000 e 2.000.000 de genes bacterianos. Essa magnitude genética microbiana confere ao microbioma uma capacidade metabólica e enzimática que supera em milhares de vezes a do próprio hospedeiro, tornando-o um modulador primário da fisiologia animal (Redfern et al., 2017).
Neste contexto, a dieta emerge como o fator ambiental mais potente na conformação da estrutura e função do microbioma intestinal. As escolhas alimentares diárias fornecem os substratos que nutrem e modelam as populações microbianas, determinando se o ambiente intestinal favorece um estado de eubiose (equilíbrio) ou disbiose (desequilíbrio). Este artigo visa aprofundar a compreensão da relação genoma-metagenoma e discutir as implicações práticas da diversidade alimentar versus a monotonia dietética, incluindo dietas restritivas (sem carne ou exclusivamente à base de ração), na promoção da eubiose e na prevenção da disbiose em cães e gatos.
A composição genética de cães e gatos estabelece as bases de suas características biológicas. O Felis catus, como carnívoro obrigatório, e o Canis lupus familiaris, como carnívoro facultativo ou onívoro adaptado, possuem genomas que refletem suas histórias evolutivas e necessidades nutricionais intrínsecas.
Em contraste com estes números, o microbioma intestinal, particularmente no cólon, é um repositório genético de proporções massivas. A microbiota hospeda um metagenoma bacteriano que pode variar entre 500.000 e 2.000.000 de genes bacterianos (Redfern et al., 2017). Essa vasta riqueza genética microbiana confere aos animais uma capacidade metabólica e bioquímica que excede em dezenas de vezes a do próprio hospedeiro. Isso significa que a maioria das transformações bioquímicas que ocorrem no trato gastrointestinal, e que impactam a saúde sistêmica, é mediada pelos microrganismos. O metagenoma bacteriano é fundamental para:
A alimentação é o principal fator ambiental que molda o microbioma intestinal em cães e gatos. A composição e a variedade da dieta determinam a disponibilidade de substratos para os microrganismos, influenciando diretamente a estrutura da comunidade microbiana (diversidade, abundância de espécies) e suas funções metabólicas.
Em populações de cães e gatos que recebem uma dieta variada e nutricionalmente completa, incluindo fontes apropriadas de proteína animal, fibras fermentáveis de múltiplas origens e uma gama diversificada de micronutrientes, observa-se a promoção da eubiose.
Em contraste, dietas monótonas ou restritivas podem predispor cães e gatos à disbiose, um desequilíbrio na comunidade microbiana intestinal.
A produção de AGCCs, como butirato, propionato e acetato, por bactérias do microbioma é um pilar da eubiose. O butirato, em particular, é um modulador epigenético e o principal combustível para os colonócitos, fortalecendo a barreira intestinal e modulando a resposta imune. Dietas ricas em fibras fermentáveis são essenciais para estimular a produção desses metabólitos benéficos. Dietas restritivas ou monótonas, especialmente aquelas com pouca fibra ou fibras de baixa qualidade, podem comprometer essa produção, levando a um ambiente intestinal disbiótico e pró-inflamatório.
A saúde e o bem-estar de cães e gatos são inseparavelmente ligados ao complexo ecossistema de seu microbioma intestinal. A notável disparidade entre o número de genes do hospedeiro e o vasto "supergenoma" bacteriano sublinha a predominância da função microbiana na fisiologia animal. A dieta, como o principal modulador desse ecossistema, detém o poder de guiar o microbioma para um estado de eubiose ou disbiose.
Dietas diversificadas, ricas em fontes de proteínas adequadas, fibras e nutrientes variados, promovem a eubiose, caracterizada por alta diversidade microbiana e produção abundante de AGCCs, o que se traduz em saúde metabólica otimizada, imunidade robusta e menor susceptibilidade a doenças. Em contrapartida, dietas monótonas ou restritivas, incluindo aquelas sem carne para carnívoros estritos como gatos, ou dietas baseadas exclusivamente em ração com baixa diversidade de ingredientes, podem induzir à disbiose. Este desequilíbrio leva à inflamação crônica, aumento da permeabilidade intestinal e a um espectro de doenças metabólicas e imunológicas.
A compreensão da interação genoma-metagenoma e a influência crítica da dieta são fundamentais para a medicina veterinária moderna. Profissionais devem enfatizar a importância de estratégias nutricionais que promovam a diversidade e o equilíbrio do microbioma para otimizar a saúde e a longevidade de cães e gatos. Pesquisas futuras deverão continuar a explorar as interações específicas entre tipos de dieta, comunidades microbianas e biomarcadores de saúde e doença em diferentes raças e estágios da vida dos animais.
PETCLUBE SCIENTIFIC JOURNAL
Short Title: Diet, Microbiome, and Health in Dogs and Cats
Authors: Cláudio Amichetti Júnior¹,² Gabriel Amichetti³
¹Integrative Veterinary Physician – CRMV-SP 75.404 VT; CREA 060149829-SP Sustainable Agronomist Engineer, Specialist in Feline Nutrition and Natural Feeding, Petclube. With over 40 years of practical experience dedicated to felines, focusing on dietary transition and wellness protocol development. ²Petclube, São Paulo, Brazil. ³Veterinary Physician – CRMV-SP 45.592 VT, Specialization in Small Animal Orthopedics and Surgery – 3RD Clínica Vila Zelina SP.
The health of dogs and cats is intrinsically linked to their gut microbiome, a complex ecosystem harboring a bacterial "metagenome" exponentially larger than the host's genome. This article discusses the genetic disparity between hosts (approximately 19,000-21,000 coding genes) and their intestinal microbiota (500,000-2,000,000 bacterial genes), highlighting the predominance of microbial metabolic capacity in animal physiology. We explore how diet acts as the primary modulator of the microbiome, contrasting the effects of diverse and nutritionally complete diets, which promote eubiosis, with monotonous and restrictive regimes (including meat-free diets based solely on kibble), which can induce dysbiosis. Eubiosis, characterized by high diversity and short-chain fatty acid production, confers metabolic and immunological health. Conversely, dysbiosis is associated with chronic inflammation and susceptibility to a range of pathologies. Understanding and dietary management of the microbiome are, therefore, crucial for optimizing the well-being and preventing diseases in dogs and cats.
Keywords: Microbiome, Metagenome, Eubiosis, Dysbiosis, Diet, Dogs, Cats, Veterinary Nutrition.
The understanding of canine (Canis lupus familiaris) and feline (Felis catus) biology has evolved substantially in recent decades, transcending the mere analysis of their nuclear genome. It is now recognized that the health and physiology of these animals are profoundly influenced by an invisible and dynamic "organ": the gut microbiome (Handl et al., 2011). This vast and complex ecosystem of microorganisms, predominantly bacteria, coexists and symbiotically interacts with the host, playing vital roles ranging from digestion and nutrient absorption to modulation of the immune system and protection against pathogens (Honneffer, Minamoto & Suchodolski, 2014).
The genetic disparity between the host and its microbial community is remarkable. While the domestic cat genome contains approximately 19,000–20,000 coding genes (Pontius et al., 2007; Montague et al., 2014) and the dog genome ranges between 19,000–21,000 coding genes (Lindblad-Toh et al., 2005; Hoeppner et al., 2014), the intestinal bacterial "metagenome" can harbor between 500,000 and 2,000,000 bacterial genes. This microbial genetic magnitude confers upon the microbiome a metabolic and enzymatic capacity that exceeds that of the host by thousands of times, making it a primary modulator of animal physiology (Redfern et al., 2017).
In this context, diet emerges as the most potent environmental factor in shaping the composition and function of the intestinal microbiome. Daily dietary choices provide the substrates that nourish and mold microbial populations, determining whether the intestinal environment favors a state of eubiosis (balance) or dysbiosis (imbalance). This article aims to deepen the understanding of the genome-metagenome relationship and discuss the practical implications of dietary diversity versus dietary monotony, including restrictive diets (meat-free or solely kibble-based), in promoting eubiosis and preventing dysbiosis in dogs and cats.
The genetic makeup of dogs and cats establishes the foundation of their biological characteristics. Felis catus, as an obligate carnivore, and Canis lupus familiaris, as a facultative carnivore or adapted omnivore, possess genomes that reflect their evolutionary histories and intrinsic nutritional needs.
In contrast to these numbers, the intestinal microbiome, particularly in the colon, is a genetic reservoir of massive proportions. The microbiota harbors a bacterial metagenome that can range between 500,000 and 2,000,000 bacterial genes (Redfern et al., 2017). This vast microbial genetic richness provides animals with metabolic and biochemical capabilities that exceed those of the host by tens of times. This means that most biochemical transformations occurring in the gastrointestinal tract, and impacting systemic health, are mediated by microorganisms. The bacterial metagenome is fundamental for:
Food is the primary environmental factor shaping the intestinal microbiome in dogs and cats. The composition and variety of the diet determine the availability of substrates for microorganisms, directly influencing the structure of the microbial community (diversity, species abundance) and its metabolic functions.
In dog and cat populations receiving a varied and nutritionally complete diet, including appropriate sources of animal protein, fermentable fibers from multiple origins, and a diverse range of micronutrients, the promotion of eubiosis is observed.
In contrast, monotonous or restrictive diets can predispose dogs and cats to dysbiosis, an imbalance in the intestinal microbial community.
The production of SCFAs, such as butyrate, propionate, and acetate, by gut bacteria is a cornerstone of eubiosis. Butyrate, in particular, is an epigenetic modulator and the primary fuel for colonocytes, strengthening the intestinal barrier and modulating the immune response. Diets rich in fermentable fibers are essential for stimulating the production of these beneficial metabolites. Restrictive or monotonous diets, especially those with low fiber content or poor-quality fibers, can compromise this production, leading to a dysbiotic and pro-inflammatory intestinal environment.
The health and well-being of dogs and cats are inextricably linked to the complex ecosystem of their gut microbiome. The remarkable disparity between the host's gene count and the vast bacterial "supergenome" underscores the predominance of microbial function in animal physiology. Diet, as the primary modulator of this ecosystem, holds the power to guide the microbiome towards a state of eubiosis or dysbiosis.
Diverse diets, rich in appropriate protein sources, fibers, and varied nutrients, promote eubiosis, characterized by high microbial diversity and abundant SCFA production, which translates into optimized metabolic health, robust immunity, and reduced susceptibility to diseases. In contrast, monotonous or restrictive diets, including those lacking meat for obligate carnivores like cats, or kibble-only diets with low ingredient diversity, can induce dysbiosis. This imbalance leads to chronic inflammation, increased intestinal permeability, and a spectrum of metabolic and immunological diseases.
Understanding the genome-metagenome interaction and the critical influence of diet is fundamental for modern veterinary medicine. Professionals must emphasize the importance of nutritional strategies that promote the diversity and balance of the intestinal microbiome to optimize the health and longevity of dogs and cats. Future research should continue to explore the specific interactions between diet types, microbial communities, and health and disease biomarkers in different breeds and life stages of animals.
Ver essa foto no InstagramUma publicação compartilhada por Amichetti Claudio (@dr.claudio.amichetti)
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