Revista Científica Medico Veterinária Instituto Petclube Cães Gatos - Pelagem cálico

Pelagem cálico

Pelagem cálico

  • GENÉTICA DA PELAGEM TRICOLOR EM MACHO DE GATO FELIS CATUS: INATIVAÇÃO DO CROMOSSOMO X, MOSAICO DE CORES E A RARIDADE DOS MACHOS CÁLICO

    Petclube Med vet

    GENÉTICA DA PELAGEM TRICOLOR EM FELIS CATUS: INATIVAÇÃO DO CROMOSSOMO X, MOSAICO DE CORES E A RARIDADE DOS MACHOS CÁLICO

    Artigo de Revisão Científica

    20 de agosto de 2026


     

    AUTORES E SUPERVISÃO TÉCNICA

    Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,²Médico-veterinário IntegrativoCRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Engenheiro Agrônomo). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.

    Gabriel Amichetti³Médico-veterinárioCRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos AnimaisClínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.

    Afiliações:
    ¹ Petclube, São Paulo, Brasil
    ²
    ³ Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil

    RESUMO

    A pelagem tricolor em gatos domésticos (Felis catus), conhecida como cálico, representa um dos exemplos mais clássicos de genética mendeliana e epigenética aplicada à biologia de mamíferos. Este artigo de revisão tem como objetivo analisar a base genética dessa coloração, fundamentada na interação entre o gene laranja (locus O) ligado ao cromossomo X e o gene de manchas brancas (locus S). A metodologia consistiu em uma revisão bibliográfica de literatura científica atualizada, abrangendo desde a hipótese de Lyon até descobertas moleculares recentes. Os resultados indicam que a expressão simultânea de pigmentos pretos e laranjas em fêmeas heterozigotas decorre da inativação aleatória de um dos cromossomos X durante a embriogênese, criando um mosaico celular. A presença de áreas brancas é controlada de forma independente por genes autossômicos. Conclui-se que a ocorrência de machos tricolores é um fenômeno biológico excepcional, resultante de aneuploidias cromossômicas, como a síndrome 39,XXY, ou de processos de quimerismo e mosaicismo. Tais indivíduos frequentemente apresentam infertilidade, embora casos raros de quimerismo possam preservar a capacidade reprodutiva, exigindo avaliação citogenética detalhada para diagnóstico clínico.

    PALAVRAS-CHAVE: Genética felina; Inativação do cromossomo X; Pelagem cálico; Gene laranja; Cromossomos sexuais; Felis catus.

    ABSTRACT

    The tricolor coat in domestic cats (Felis catus), known as calico, represents one of the most classic examples of Mendelian genetics and epigenetics applied to mammalian biology. This review article aims to analyze the genetic basis of this coloration, based on the interaction between the orange gene (O locus) linked to the X chromosome and the white spotting gene (S locus). The methodology consisted of a bibliographic review of updated scientific literature, ranging from Lyon's hypothesis to recent molecular discoveries. The results indicate that the simultaneous expression of black and orange pigments in heterozygous females results from the random inactivation of one of the X chromosomes during embryogenesis, creating a cellular mosaic. The presence of white areas is independently controlled by autosomal genes. It is concluded that the occurrence of tricolor males is an exceptional biological phenomenon, resulting from chromosomal aneuploidies, such as the 39,XXY syndrome, or processes of chimerism and mosaicism. Such individuals often present infertility, although rare cases of chimerism may preserve reproductive capacity, requiring detailed cytogenetic evaluation for clinical diagnosis.

    KEYWORDS: Feline genetics; X-chromosome inactivation; Calico coat; Orange gene; Sex chromosomes; Felis catus.

    1. INTRODUÇÃO

    A pelagem dos felinos domésticos é um campo de estudo vasto que transcende a estética, servindo como um modelo biológico fundamental para a compreensão da herança ligada ao sexo e dos mecanismos de compensação de dose gênica. Entre os diversos padrões observados, a pelagem tricolor, ou cálico, destaca-se por sua complexidade visual e biológica. Caracterizada pela presença concomitante de manchas pretas (ou suas variações), laranjas e brancas, essa configuração é quase exclusivamente observada em indivíduos do sexo feminino. Este fenômeno desperta interesse científico não apenas pela sua manifestação fenotípica, mas pelas implicações genéticas subjacentes que envolvem a interação de múltiplos loci e processos epigenéticos críticos.

    A problemática central reside na compreensão dos mecanismos que impedem, em condições normais, que machos expressem o padrão tricolor, uma vez que a determinação da cor laranja está intrinsecamente ligada ao cromossomo sexual X. O objetivo deste artigo é detalhar a base genética da pelagem cálico, explorando a inativação do cromossomo X e o papel dos genes de pigmentação, além de investigar as condições excepcionais que permitem o surgimento de machos com essa característica, analisando as implicações clínicas e reprodutivas de tais anomalias cromossômicas.

    2. REVISÃO DE LITERATURA

    2.1 A genética das cores da pelagem

    A pigmentação básica dos gatos é determinada pela presença de eumelanina (preto) e feomelanina (laranja). A produção de feomelanina é controlada pelo locus O (Orange), localizado no cromossomo X. O alelo dominante (O) converte a eumelanina em feomelanina, resultando na cor laranja, enquanto o alelo recessivo (o) permite a expressão da cor preta. Recentemente, avanços na genômica funcional identificaram o gene Arhgap36 como a provável base molecular para a cor laranja em felinos, conforme demonstrado nos estudos de Kaelin et al. (2025). Esta descoberta preenche uma lacuna histórica na genética felina, mapeando com precisão o mecanismo de regulação que ocorre no cromossomo X.

    Além do locus O, a pelagem cálico requer a presença do gene de manchas brancas (locus S), um gene autossômico com dominância incompleta que determina áreas de despigmentação. Quando um gato possui o alelo S, ocorre a migração restrita de melanócitos durante o desenvolvimento embrionário, resultando em manchas brancas. As variações de intensidade, como o cinza (azul) e o creme, são influenciadas pelo gene de diluição (locus D), que altera a distribuição dos grânulos de pigmento no fio de pelo, mas não altera a lógica fundamental da herança ligada ao sexo (RODRIGUES et al., s.d.).

    2.2 A inativação do cromossomo X e o mosaico de cores

    O padrão tricolor em fêmeas é uma manifestação direta da hipótese de Lyon, formulada por Mary Lyon em 1961. Segundo este princípio, em fêmeas de mamíferos (XX), um dos dois cromossomos X é inativado aleatoriamente em cada célula somática durante o estágio inicial de blastocisto. Esse processo de compensação de dose garante que as fêmeas não produzam o dobro de proteínas ligadas ao X em comparação aos machos (XY). Uma fêmea heterozigota para o gene laranja (Oo) terá populações de células onde o X portador do alelo O está ativo, produzindo pelos laranjas, e outras populações onde o X portador do alelo o está ativo, resultando em pelos pretos.

    Essa inativação é permanente para todas as células descendentes daquela linhagem, resultando em um mosaico fenotípico. A distribuição das manchas depende do momento em que a inativação ocorreu e da migração celular subsequente. Em gatos cálico, a presença do gene de manchas brancas (S) tende a retardar a migração dos melanócitos, o que frequentemente resulta em manchas de cores sólidas e bem definidas, em contraste com o padrão "escama de tartaruga" (tortoiseshell), onde as cores laranja e preto aparecem mais misturadas devido à ausência ou baixa expressão do branco.

    2.3 O papel do branco

    Diferente das cores preta e laranja, o branco não é uma cor propriamente dita, mas a ausência de pigmentação. O locus S (White Spotting) atua de forma independente dos cromossomos sexuais. A interação entre o mosaico gerado pela inativação do X e a ação do gene S é o que define o fenótipo cálico. Estudos indicam que quanto maior a quantidade de branco presente no animal, maiores e mais delimitadas tendem a ser as manchas pretas e laranjas. Isso ocorre porque o branco influencia a proliferação e a distribuição dos melanoblastos na derme, segregando as linhagens celulares que expressam diferentes alelos do cromossomo X.

    2.4 Os raros machos tricolores

    Visto que os machos possuem apenas um cromossomo X (XY), eles são hemizigotos para o locus O, podendo expressar apenas laranja ou preto, mas não ambos simultaneamente. No entanto, a literatura científica registra casos raros de machos tricolores, ocorrendo em uma proporção aproximada de 1 para cada 3.000 gatos cálico. A causa mais comum é a aneuploidia cromossômica 39,XXY, análoga à síndrome de Klinefelter em humanos. Pedersen et al. (2013) descreveram um caso de macho tortoiseshell com cariótipo 39,XXY, observando que tais indivíduos são invariavelmente estéreis devido à hipoplasia testicular e ausência de espermatogênese.

    Outras origens genéticas incluem o quimerismo e o mosaicismo. O quimerismo ocorre quando dois embriões distintos (por exemplo, um preto e um laranja) se fundem no útero, resultando em um único indivíduo com duas linhagens celulares geneticamente diferentes. Bugno-Poniewierska et al. (2020) relataram um caso excepcional de um macho tricolor fértil com quimerismo verdadeiro (38,XY/38,XY). Nesses casos, se a linhagem celular que forma as gônadas for tipicamente masculina e estável, a fertilidade pode ser preservada, embora o fenótipo externo exiba o mosaico de cores. O mosaicismo, por sua vez, decorre de mutações somáticas ou erros na disjunção mitótica durante o desenvolvimento inicial de um embrião XY.

    3. METODOLOGIA

    O presente estudo caracteriza-se como uma revisão de literatura de natureza qualitativa e descritiva. A coleta de dados foi realizada por meio de levantamento bibliográfico em bases de dados científicas reconhecidas, incluindo PubMed, ScienceDirect, Google Acadêmico e repositórios de periódicos especializados em genética e reprodução animal. Foram selecionados artigos publicados entre 1961 e 2026, priorizando estudos de caso citogenéticos e pesquisas de mapeamento molecular recentes. Os critérios de inclusão abrangeram textos que discutissem a inativação do cromossomo X, a ação dos loci O e S, e relatos de anomalias cromossômicas em felinos domésticos.

    4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

    A pelagem tricolor em gatos é um fenômeno que ilustra com elegância a complexidade da regulação gênica em mamíferos. A condição cálico é, fundamentalmente, uma expressão visual da inativação aleatória do cromossomo X em fêmeas heterozigotas, combinada com a ação de genes autossômicos de manchas brancas. A raridade dos machos tricolores confirma a rigidez dos mecanismos de herança ligada ao sexo, sendo estes indivíduos o resultado de eventos biológicos atípicos como a não-disjunção cromossômica ou a fusão embrionária.

    Do ponto de vista clínico, a identificação de um macho tricolor exige uma investigação profunda, visto que a maioria desses animais apresenta a síndrome 39,XXY e consequente infertilidade. Contudo, a existência de quimeras férteis ressalta a necessidade de exames de cariótipo e biópsias testiculares em casos de interesse reprodutivo. O avanço nas técnicas de sequenciamento e mapeamento molecular, como a recente caracterização do gene Arhgap36, continua a expandir o entendimento sobre a biologia do desenvolvimento e a genética da pigmentação, consolidando o gato doméstico como um modelo valioso para a ciência genômica.

    5. REFERÊNCIAS

    ATENA EDITORA. Gato macho (Felis catus) cálico/tricolor: relato de caso. Paraná: Atena Editora, [s.d.].

    BUGNO-PONIEWIERSKA, M. et al. Fertile male tortoiseshell cat with true chimerism 38,XY/38,XY. Reproduction in Domestic Animals, v. 55, n. 9, p. 1195-1199, 2020. DOI 10.1111/rda.13752.

    KAELIN, C. B. et al. Molecular and genetic characterization of sex-linked orange coat color in the domestic cat. Current Biology, jun. 2025. (Preprint bioRxiv 2024, DOI 10.1101/2024.11.21.624608).

    LYON, M. F. Gene action in the X-chromosome of the mouse (Mus musculus L.). Nature, v. 190, p. 372-373, 1961.

    PEDERSEN, A. S.; BERG, L. C.; ALMSTRUP, K.; THOMSEN, P. D. A Tortoiseshell Male Cat: Chromosome Analysis and Histologic Examination of the Testis. Cytogenetic and Genome Research, v. 142, n. 2, p. 107-111, 2013. DOI 10.1159/000356466.

    RODRIGUES, S. et al. Alterações genéticas envolvidas na expressão das pelagens tortoiseshell e cálico em gatos. PubVet, v. 12, n. 1, 2018. Disponível em: pubvet.com.br. Acesso em: 20 ago. 2026.


     

    Documento elaborado em 20 de agosto de 2026.