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Autores:
Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; Engenheiro Agrônomo Sustentável- CREA 060149829-SP , Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de expertise prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
² [Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil]
³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
Gatos domésticos ( Felis catus ) são carnívoros estritos, uma característica que molda profundamente suas necessidades nutricionais e metabolismo. Dietas ricas em carboidratos e óleos vegetais, comuns em rações comerciais, podem apresentar desafios significativos à sua fisiologia adaptada a uma dieta proteica e lipídica de origem animal. Esta revisão aborda a carnivoria estrita felina, a intolerância a carboidratos, o impacto no índice glicêmico e diabetes, o desenvolvimento de lipidose hepática, a influência de óleos vegetais na inflamação, e a modulação do microbioma intestinal, com especial atenção à produção, translocação de endotoxinas (LPS) e sua associação com a inflamação sistêmica. Exploramos também a relação com doenças cardíacas, dermatopatias, a prevalência de obesidade e inflamação sistêmica, doenças renais e hipertensão, culminando nas implicações para a qualidade de vida felina. Através de uma compilação de literatura peer-reviewed e da perspectiva de décadas de prática clínica, busca-se consolidar o conhecimento sobre como a nutrição inadequada pode predispor os felinos a diversas patologias, ressaltando a importância de uma formulação dietética, como a alimentação natural, que respeite sua natureza carnívora e promova a saúde integral.
Palavras-chave: Gato, carnivoria estrita, carboidratos, diabetes, lipidose hepática, óleos vegetais, microbioma, endotoxinas, doença renal, hipertensão, doença cardíaca, dermatopatias, obesidade, alimentação natural, medicina veterinária integrativa, qualidade de vida.
Os gatos domésticos são classificados taxonomicamente como carnívoros estritos ( obligate carnivores ), uma distinção fundamental que define suas exigências nutricionais e adaptações metabólicas (Zoran, 2002). Ao contrário de outras espécies que conseguem adaptar seu metabolismo para utilizar diversos substratos energéticos, os felinos evoluíram para depender primariamente de proteínas e gorduras de origem animal. Essa especificidade se reflete em características fisiológicas únicas, como a necessidade de altos níveis de taurina, arginina, niacina e vitamina A pré-formada na dieta, e uma capacidade limitada de sintetizar certos nutrientes a partir de precursores vegetais (Zoran, 2002; Plantinga et al., 2011).
A crescente industrialização da alimentação para animais de companhia, muitas vezes buscando otimização de custos e conveniência, resultou na formulação de dietas com proporções de macronutrientes que podem não ser totalmente compatíveis com a biologia felina. Em particular, a inclusão de altos níveis de carboidratos em dietas comerciais tem levantado preocupações crescentes entre pesquisadores e clínicos veterinários (Kirk et al., 2001; Verbrugghe & Hesta, 2017).
Este trabalho, fundamentado em quatro décadas de prática clínica e pesquisa no Petclube, um centro dedicado à saúde e ao bem-estar felino, e na expertise em medicina veterinária integrativa e alimentação natural, busca consolidar o conhecimento científico sobre a intrínseca relação entre a dieta e a saúde sistêmica dos gatos domésticos. A revisão propõe-se a explorar o impacto da composição dietética, com foco na ingestão de carboidratos e óleos vegetais, na saúde geral dos felinos domésticos. Serão abordadas as consequências metabólicas, endócrinas, gastrointestinais e dermatológicas, bem como a predisposição a condições patológicas como diabetes mellitus, lipidose hepática, doenças cardíacas e inflamação sistêmica. Além disso, a análise será aprofundada para incluir o papel das endotoxinas bacterianas na inflamação crônica, a saúde renal, a hipertensão e, em última instância, a qualidade de vida felina. Baseada em evidências científicas da medicina veterinária, este trabalho visa consolidar o conhecimento sobre como a nutrição inadequada pode predispor os felinos a diversas patologias, e oferecer uma contribuição relevante tanto para a comunidade científica veterinária quanto para tutores e amantes de felinos, promovendo a compreensão crítica da transição dietética e seus benefícios.
A definição de carnívoro estrito para o gato não é meramente preferencial, mas bioquímica. Seu metabolismo é otimizado para o catabolismo de proteínas para energia (gliconeogênese contínua) e possui vias metabólicas limitadas para o uso eficiente de carboidratos (Zoran, 2002). Estudos demonstram que gatos apresentam uma atividade reduzida de enzimas envolvidas na digestão e metabolismo de carboidratos, como a amilase salivar e intestinal, e enzimas hepáticas relacionadas à glicólise (Kirk et al., 2001). Essa menor capacidade para digerir carboidratos em comparação com cães é um indicativo claro de sua adaptação a uma dieta pobre nesse macronutriente.
A fisiologia felina exibe uma gliconeogênese hepática constantemente ativa, mesmo na presença de carboidratos dietéticos, devido à baixa atividade da enzima glicoquinase e alta atividade da glicose-6-fosfatase. Isso significa que seus fígados estão sempre produzindo glicose a partir de aminoácidos, o que pode ser um fardo metabólico em dietas ricas em carboidratos (Zoran, 2002; Verbrugghe & Hesta, 2017).
A prevalência de diabetes mellitus em gatos tem aumentado, e a dieta é um fator etiológico significativo (Rand et al., 2004). Dietas com alto teor de carboidratos levam a picos glicêmicos pós-prandiais mais acentuados e, consequentemente, a uma demanda contínua por insulina. Gatos obesos já demonstram menor sensibilidade à insulina em comparação com gatos magros, e essa sensibilidade pode ser ainda mais comprometida por dietas inadequadas (Appleton et al., 2001).
A exposição crônica a altas cargas glicêmicas pode exaurir as células beta pancreáticas, culminando em resistência à insulina e diabetes tipo 2. A relação entre a dieta, o índice glicêmico e o desenvolvimento de diabetes é um campo de intensa pesquisa, e a formulação de dietas com baixo teor de carboidratos e alto teor proteico tem sido explorada como uma estratégia de manejo e prevenção (Rand et al., 2004; Verbrugghe & Hesta, 2017).
A lipidose hepática felina, também conhecida como síndrome do fígado gorduroso, é uma das hepatopatias mais comuns e graves em gatos, frequentemente desencadeada por períodos de anorexia ou subnutrição em gatos obesos (Center, 2005). Embora não seja diretamente causada por carboidratos, o metabolismo lipídico em gatos é altamente sensível à composição dietética e ao estado nutricional geral. Gatos obesos, muitas vezes mantidos com dietas ricas em carboidratos, têm um risco aumentado de desenvolver lipidose hepática quando enfrentam estresse ou perda de apetite (Lascelles et al., 1999).
A disfunção metabólica associada à obesidade e dietas inadequadas pode levar ao acúmulo excessivo de triglicerídeos no fígado. Dietas com formulação inadequada podem também impactar a mobilização e o transporte de lipídios, exacerbando o risco (Wakshlag et al., 2004). O manejo nutricional é crucial tanto na prevenção quanto no tratamento desta condição.
A composição de ácidos graxos na dieta felina tem implicações diretas na saúde, especialmente em relação aos processos inflamatórios. Enquanto ácidos graxos ômega-3 são geralmente anti-inflamatórios, os ácidos graxos ômega-6 (comuns em óleos vegetais como girassol e milho) podem ter efeitos pró-inflamatórios se consumidos em excesso ou em proporções desequilibradas em relação aos ômega-3 (Bauer, 2006).
Gatos possuem vias metabólicas específicas para ácidos graxos poli-insaturados. O desequilíbrio entre ômega-6 e ômega-3 pode influenciar a produção de eicosanoides, mediadores inflamatórios. Dietas ricas em óleos vegetais e com baixa inclusão de fontes de ômega-3 (como óleo de peixe) podem exacerbar condições inflamatórias crônicas, impactando a saúde da pele, pelo e a resposta imune geral (Bauer, 2006; Fascetti & Delaney, 2012). Embora a pesquisa em cães sobre o tema seja mais robusta, como no estudo de Hall e Jewell (2012) que mostrou o impacto de óleos vegetais na composição de lipídios na pele e pelo, os princípios de balanço de ácidos graxos são relevantes para felinos.
A saúde gastrointestinal é intrinsecamente ligada ao microbioma, a comunidade de microrganismos que habita o trato digestório. A dieta é um dos principais moduladores do microbioma felino (Hooda et al., 2013). Desequilíbrios na dieta, como o excesso de carboidratos complexos ou ingredientes de baixa digestibilidade, podem alterar a composição e a função do microbioma, levando à disbiose.
A disbiose, por sua vez, tem sido associada à diarreia crônica e à doença inflamatória intestinal (DII) em gatos (Tun et al., 2012; Marsilio et al., 2019). Estudos metagenômicos revelaram que gatos com diarreia crônica exibem um perfil microbiano intestinal alterado, com mudanças na abundância de certas bactérias (Bermingham et al., 2018). Dietas formuladas para promover um microbioma saudável, com proteínas de alta qualidade e fibras prebióticas apropriadas, são essenciais para manter a integridade intestinal e prevenir distúrbios.
Um aspecto crítico da disbiose e da integridade intestinal comprometida é o aumento da translocação bacteriana e a liberação de endotoxinas, especificamente o lipopolissacarídeo (LPS). O LPS é um componente da parede celular de bactérias Gram-negativas e é liberado na corrente sanguínea quando essas bactérias morrem ou quando há aumento da permeabilidade da barreira intestinal ("leaky gut") (Johnson et al., 2018). Dietas ricas em carboidratos de rápida fermentação ou com baixa qualidade de fibras podem favorecer a proliferação de bactérias Gram-negativas no intestino, contribuindo para uma maior produção de LPS.
A presença de LPS na corrente sanguínea (endotoxemia) desencadeia uma forte resposta inflamatória sistêmica. Mesmo em níveis baixos, a endotoxemia crônica pode contribuir para a inflamação de baixo grau observada em condições como obesidade e resistência à insulina, exacerbando as doenças metabólicas já discutidas (German, 2006; Laflamme, 2006). A disbiose intestinal e o aumento da permeabilidade da mucosa foram observados em gatos com condições crônicas, incluindo a doença renal, sugerindo uma via para a endotoxemia (Smith et al., 2020). Este processo inflamatório contínuo pode ter ramificações significativas para múltiplos sistemas orgânicos, incluindo rins e sistema cardiovascular.
A nutrição desempenha um papel fundamental na saúde cardíaca felina. A deficiência de taurina, um aminoácido essencial para gatos, é uma causa bem documentada de cardiomiopatia dilatada (CMD) em felinos (Backus et al., 2018). Embora a deficiência grave de taurina seja menos comum hoje devido à sua suplementação em dietas comerciais, fatores dietéticos ainda podem influenciar a biodisponibilidade e o metabolismo deste e de outros nutrientes cardioprotetores.
Além da taurina, o balanço de eletrólitos, a ingestão de sódio e a presença de ácidos graxos ômega-3 na dieta podem modular a função cardíaca e a progressão de doenças cardíacas (Freeman et al., 2010). Dietas terapêuticas para gatos com doença cardíaca são frequentemente formuladas para otimizar o peso corporal, reduzir a retenção de sódio e fornecer suporte antioxidante e anti-inflamatório. A inflamação sistêmica crônica, potenciada pela endotoxemia e disbiose intestinal, também pode contribuir para o estresse oxidativo e o dano celular no miocárdio, afetando a saúde cardiovascular a longo prazo.
A doença renal crônica (DRC) é uma das principais causas de morbidade e mortalidade em gatos idosos, e a dieta exerce uma influência considerável em sua progressão e manejo. Embora a etiologia da DRC seja multifatorial, a nutrição pode atuar como fator protetor ou de risco. Dietas com altos níveis de fósforo, por exemplo, têm sido associadas à progressão da DRC em felinos.
A conexão entre a saúde intestinal e a função renal tem sido cada vez mais reconhecida, formando o conceito de "eixo intestino-rim". Em gatos com DRC, é comum observar alterações no microbioma intestinal (disbiose) e aumento da produção de toxinas urêmicas de origem entérica (Smith et al., 2020). A endotoxemia, resultante da translocação de LPS para a circulação sistêmica, tem sido implicada na perpetuação da inflamação e no agravamento do dano renal. O LPS pode ativar receptores Toll-like (TLR4) nas células renais, desencadeando vias inflamatórias e oxidativas que contribuem para a fibrose e a perda de função renal (Green et al., 2019). Gatos com DRC frequentemente apresentam evidências de inflamação sistêmica e estresse oxidativo, e a redução da carga de endotoxinas pode ser uma estratégia terapêutica valiosa (Williams et al., 2021).
A hipertensão sistêmica é uma comorbidade comum em gatos com doença renal crônica, mas também pode ocorrer de forma primária ou associada a outras condições endócrinas. A inflamação sistêmica, incluindo aquela impulsionada pela endotoxemia e disbiose intestinal, pode desempenhar um papel no desenvolvimento e agravamento da hipertensão. Mediadores inflamatórios e citocinas podem afetar a função endotelial, a reatividade vascular e o sistema renina-angiotensina-aldosterona, contribuindo para o aumento da pressão arterial. O manejo dietético, que visa controlar a inflamação, o peso e a ingestão de nutrientes específicos (como sódio e fósforo), é vital para a saúde renal e o controle da hipertensão.
A saúde da pele e do pelo em gatos é um indicador visível do estado nutricional e um reflexo da dieta. Deficiências nutricionais ou desequilíbrios podem levar a dermatites, qualidade deficiente do pelo e outras afecções dermatológicas.
Ácidos graxos essenciais, como ômega-3 e ômega-6 em proporções adequadas, são cruciais para a manutenção da barreira cutânea e para reduzir a inflamação. A suplementação com óleo de peixe e outros óleos com alto teor de ômega-3 tem demonstrado melhorar a condição da pele e do pelo em gatos (Watson et al., 2006). A taurina, além de seu papel cardíaco, também é importante para a função folicular pilosa; a deficiência pode prejudicar o crescimento e a saúde do pelo (Mori et al., 2008). Vitaminas, minerais e proteínas de alta qualidade também são indispensáveis para a saúde dermatológica. A inflamação sistêmica decorrente de disbiose e endotoxemia também pode se manifestar em problemas dermatológicos, tornando a abordagem nutricional um pilar no tratamento de diversas dermatopatias.
A obesidade é uma epidemia crescente em cães e gatos, com sérias implicações para a saúde (German, 2006; Hoenig, 2006). Dietas ricas em carboidratos e gorduras, aliadas a um estilo de vida sedentário, contribuem significativamente para o ganho de peso. Em gatos, a obesidade é um estado pró-inflamatório crônico, com o tecido adiposo atuando como um órgão endócrino que secreta adipocinas e citocinas que promovem inflamação sistêmica (German, 2006; Laflamme, 2006).
A endotoxemia, oriunda da disbiose intestinal exacerbada por dietas inadequadas, pode ser um fator contribuinte significativo para a inflamação sistêmica observada em gatos obesos, estabelecendo um ciclo vicioso entre dieta, disbiose, inflamação e ganho de peso (Johnson et al., 2018). A compreensão de que as rações ricas em carboidratos, apesar de serem muitas vezes palatáveis e energeticamente densas, não se alinham à fisiologia felina, é crucial para o combate à obesidade e suas comorbidades (Laflamme, 2006). O manejo da obesidade envolve uma combinação de restrição calórica e uma dieta formulada para promover a perda de peso enquanto preserva a massa muscular, muitas vezes com maior teor proteico.
Todas as condições patológicas discutidas — diabetes, lipidose hepática, doenças cardíacas, dermatopatias, doenças renais, hipertensão e a inflamação crônica impulsionada por disbiose e endotoxemia — impactam diretamente a qualidade de vida dos gatos. Um gato com dor crônica, desconforto gastrointestinal, prurido intenso, ou letargia e fraqueza devido a condições metabólicas e renais, experimentará uma redução significativa em seu bem-estar.
A diminuição da qualidade de vida pode se manifestar em alterações comportamentais, como apatia, irritabilidade, perda de apetite, ou até mesmo agressividade. A dor e o desconforto podem limitar a capacidade do gato de realizar atividades naturais, como brincar, caçar (mesmo que simuladamente), interagir socialmente e se cuidar (grooming), fundamentais para sua saúde mental e física. Intervenções nutricionais adequadas, focadas em restaurar a saúde metabólica, reduzir a inflamação sistêmica e apoiar a função de órgãos vitais, não apenas tratam as doenças, mas também melhoram dramaticamente o conforto e o bem-estar geral, prolongando a vida com dignidade e vitalidade. A transição da ração para uma alimentação natural, quando bem orientada e balanceada, representa uma das mais eficazes estratégias para otimizar esses parâmetros de saúde e qualidade de vida.
A natureza carnívora estrita dos gatos impõe requisitos nutricionais específicos que são frequentemente desconsiderados na formulação de dietas comerciais. A análise da literatura e a experiência clínica reforçam que dietas ricas em carboidratos e desequilibradas em ácidos graxos podem ter um impacto deletério multifacetado na saúde felina, predispondo-os a condições como diabetes mellitus, lipidose hepática, doenças cardíacas, dermatopatias e disbiose intestinal. Aprofundamos o entendimento de que a disbiose pode levar à endotoxemia (LPS alto), fomentando uma inflamação sistêmica crônica que, por sua vez, contribui para o desenvolvimento e progressão de doenças renais, hipertensão e exacerba a obesidade.
A compreensão profunda das necessidades nutricionais felinas, corroborada por décadas de observação clínica e aplicação de princípios de medicina integrativa, é imperativa para médicos veterinários, tutores e fabricantes de alimentos. A promoção de dietas que respeitem a fisiologia carnívora estrita dos gatos, com altos níveis de proteína de origem animal, gorduras adequadas e baixa concentração de carboidratos, como a alimentação natural, é fundamental para a prevenção e manejo de diversas doenças, melhorando significativamente a qualidade de vida felina. Este artigo, fruto de uma jornada dedicada no Petclube, visa ser uma base sólida para a transição dietética segura e eficaz, contribuindo para uma comunidade felina mais saudável e informada através do conhecimento científico consistente e da prática integrativa.
REVISTA CIENTÍFICA PETCLUBE
Título Curto: Dieta, Microbioma e Saúde em Cães e Gatos
Autores:
Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
² [Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil]
³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
A saúde de cães e gatos é intrinsecamente ligada ao seu microbioma intestinal, um ecossistema complexo que detém um "metagenoma" bacteriano exponencialmente maior que o genoma do hospedeiro. Este artigo discute a disparidade genética entre hospedeiros (aproximadamente 19.000-21.000 genes codificadores) e sua microbiota intestinal (500.000-2.000.000 de genes bacterianos), ressaltando a predominância da capacidade metabólica microbiana na fisiologia animal. Exploramos como a dieta atua como principal modulador do microbioma, contrastando os efeitos de dietas diversificadas e nutricionalmente completas, que promovem a eubiose, com regimes monótonos e restritivos (incluindo dietas sem carne baseadas exclusivamente em ração), que podem induzir à disbiose. A eubiose, caracterizada por alta diversidade e produção de ácidos graxos de cadeia curta, confere saúde metabólica e imunológica. Por outro lado, a disbiose está associada a inflamação crônica e susceptibilidade a uma gama de patologias. A compreensão e o manejo dietético do microbioma são, portanto, cruciais para otimizar o bem-estar e prevenir doenças em cães e gatos.
Palavras-chave: Microbioma, Metagenoma, Eubiose, Disbiose, Dieta, Cães, Gatos, Nutrição Veterinária.
A compreensão da biologia de cães (Canis lupus familiaris) e gatos (Felis catus) tem evoluído substancialmente nas últimas décadas, transcendo a mera análise de seu genoma nuclear. Atualmente, reconhece-se que a saúde e a fisiologia desses animais são profundamente influenciadas por um "órgão" invisível e dinâmico: o microbioma intestinal (Handl et al., 2011). Este vasto e complexo ecossistema de microrganismos, predominantemente bactérias, coexiste e interage simbioticamente com o hospedeiro, desempenhando funções vitais que vão desde a digestão e absorção de nutrientes até a modulação do sistema imunológico e a proteção contra patógenos (Honneffer, Minamoto & Suchodolski, 2014).
A disparidade genética entre o hospedeiro e sua comunidade microbiana é notável. Enquanto o genoma do gato doméstico contém aproximadamente 19.000–20.000 genes codificadores (Pontius et al., 2007; Montague et al., 2014) e o do cão varia entre 19.000–21.000 genes codificadores (Lindblad-Toh et al., 2005; Hoeppner et al., 2014), o "metagenoma" bacteriano intestinal pode abrigar entre 500.000 e 2.000.000 de genes bacterianos. Essa magnitude genética microbiana confere ao microbioma uma capacidade metabólica e enzimática que supera em milhares de vezes a do próprio hospedeiro, tornando-o um modulador primário da fisiologia animal (Redfern et al., 2017).
Neste contexto, a dieta emerge como o fator ambiental mais potente na conformação da estrutura e função do microbioma intestinal. As escolhas alimentares diárias fornecem os substratos que nutrem e modelam as populações microbianas, determinando se o ambiente intestinal favorece um estado de eubiose (equilíbrio) ou disbiose (desequilíbrio). Este artigo visa aprofundar a compreensão da relação genoma-metagenoma e discutir as implicações práticas da diversidade alimentar versus a monotonia dietética, incluindo dietas restritivas (sem carne ou exclusivamente à base de ração), na promoção da eubiose e na prevenção da disbiose em cães e gatos.
A composição genética de cães e gatos estabelece as bases de suas características biológicas. O Felis catus, como carnívoro obrigatório, e o Canis lupus familiaris, como carnívoro facultativo ou onívoro adaptado, possuem genomas que refletem suas histórias evolutivas e necessidades nutricionais intrínsecas.
Em contraste com estes números, o microbioma intestinal, particularmente no cólon, é um repositório genético de proporções massivas. A microbiota hospeda um metagenoma bacteriano que pode variar entre 500.000 e 2.000.000 de genes bacterianos (Redfern et al., 2017). Essa vasta riqueza genética microbiana confere aos animais uma capacidade metabólica e bioquímica que excede em dezenas de vezes a do próprio hospedeiro. Isso significa que a maioria das transformações bioquímicas que ocorrem no trato gastrointestinal, e que impactam a saúde sistêmica, é mediada pelos microrganismos. O metagenoma bacteriano é fundamental para:
A alimentação é o principal fator ambiental que molda o microbioma intestinal em cães e gatos. A composição e a variedade da dieta determinam a disponibilidade de substratos para os microrganismos, influenciando diretamente a estrutura da comunidade microbiana (diversidade, abundância de espécies) e suas funções metabólicas.
Em populações de cães e gatos que recebem uma dieta variada e nutricionalmente completa, incluindo fontes apropriadas de proteína animal, fibras fermentáveis de múltiplas origens e uma gama diversificada de micronutrientes, observa-se a promoção da eubiose.
Em contraste, dietas monótonas ou restritivas podem predispor cães e gatos à disbiose, um desequilíbrio na comunidade microbiana intestinal.
A produção de AGCCs, como butirato, propionato e acetato, por bactérias do microbioma é um pilar da eubiose. O butirato, em particular, é um modulador epigenético e o principal combustível para os colonócitos, fortalecendo a barreira intestinal e modulando a resposta imune. Dietas ricas em fibras fermentáveis são essenciais para estimular a produção desses metabólitos benéficos. Dietas restritivas ou monótonas, especialmente aquelas com pouca fibra ou fibras de baixa qualidade, podem comprometer essa produção, levando a um ambiente intestinal disbiótico e pró-inflamatório.
A saúde e o bem-estar de cães e gatos são inseparavelmente ligados ao complexo ecossistema de seu microbioma intestinal. A notável disparidade entre o número de genes do hospedeiro e o vasto "supergenoma" bacteriano sublinha a predominância da função microbiana na fisiologia animal. A dieta, como o principal modulador desse ecossistema, detém o poder de guiar o microbioma para um estado de eubiose ou disbiose.
Dietas diversificadas, ricas em fontes de proteínas adequadas, fibras e nutrientes variados, promovem a eubiose, caracterizada por alta diversidade microbiana e produção abundante de AGCCs, o que se traduz em saúde metabólica otimizada, imunidade robusta e menor susceptibilidade a doenças. Em contrapartida, dietas monótonas ou restritivas, incluindo aquelas sem carne para carnívoros estritos como gatos, ou dietas baseadas exclusivamente em ração com baixa diversidade de ingredientes, podem induzir à disbiose. Este desequilíbrio leva à inflamação crônica, aumento da permeabilidade intestinal e a um espectro de doenças metabólicas e imunológicas.
A compreensão da interação genoma-metagenoma e a influência crítica da dieta são fundamentais para a medicina veterinária moderna. Profissionais devem enfatizar a importância de estratégias nutricionais que promovam a diversidade e o equilíbrio do microbioma para otimizar a saúde e a longevidade de cães e gatos. Pesquisas futuras deverão continuar a explorar as interações específicas entre tipos de dieta, comunidades microbianas e biomarcadores de saúde e doença em diferentes raças e estágios da vida dos animais.
PETCLUBE SCIENTIFIC JOURNAL
Short Title: Diet, Microbiome, and Health in Dogs and Cats
The health of dogs and cats is intrinsically linked to their gut microbiome, a complex ecosystem harboring a bacterial "metagenome" exponentially larger than the host's genome. This article discusses the genetic disparity between hosts (approximately 19,000-21,000 coding genes) and their intestinal microbiota (500,000-2,000,000 bacterial genes), highlighting the predominance of microbial metabolic capacity in animal physiology. We explore how diet acts as the primary modulator of the microbiome, contrasting the effects of diverse and nutritionally complete diets, which promote eubiosis, with monotonous and restrictive regimes (including meat-free diets based solely on kibble), which can induce dysbiosis. Eubiosis, characterized by high diversity and short-chain fatty acid production, confers metabolic and immunological health. Conversely, dysbiosis is associated with chronic inflammation and susceptibility to a range of pathologies. Understanding and dietary management of the microbiome are, therefore, crucial for optimizing the well-being and preventing diseases in dogs and cats.
Keywords: Microbiome, Metagenome, Eubiosis, Dysbiosis, Diet, Dogs, Cats, Veterinary Nutrition.
The understanding of canine (Canis lupus familiaris) and feline (Felis catus) biology has evolved substantially in recent decades, transcending the mere analysis of their nuclear genome. It is now recognized that the health and physiology of these animals are profoundly influenced by an invisible and dynamic "organ": the gut microbiome (Handl et al., 2011). This vast and complex ecosystem of microorganisms, predominantly bacteria, coexists and symbiotically interacts with the host, playing vital roles ranging from digestion and nutrient absorption to modulation of the immune system and protection against pathogens (Honneffer, Minamoto & Suchodolski, 2014).
The genetic disparity between the host and its microbial community is remarkable. While the domestic cat genome contains approximately 19,000–20,000 coding genes (Pontius et al., 2007; Montague et al., 2014) and the dog genome ranges between 19,000–21,000 coding genes (Lindblad-Toh et al., 2005; Hoeppner et al., 2014), the intestinal bacterial "metagenome" can harbor between 500,000 and 2,000,000 bacterial genes. This microbial genetic magnitude confers upon the microbiome a metabolic and enzymatic capacity that exceeds that of the host by thousands of times, making it a primary modulator of animal physiology (Redfern et al., 2017).
In this context, diet emerges as the most potent environmental factor in shaping the composition and function of the intestinal microbiome. Daily dietary choices provide the substrates that nourish and mold microbial populations, determining whether the intestinal environment favors a state of eubiosis (balance) or dysbiosis (imbalance). This article aims to deepen the understanding of the genome-metagenome relationship and discuss the practical implications of dietary diversity versus dietary monotony, including restrictive diets (meat-free or solely kibble-based), in promoting eubiosis and preventing dysbiosis in dogs and cats.
The genetic makeup of dogs and cats establishes the foundation of their biological characteristics. Felis catus, as an obligate carnivore, and Canis lupus familiaris, as a facultative carnivore or adapted omnivore, possess genomes that reflect their evolutionary histories and intrinsic nutritional needs.
In contrast to these numbers, the intestinal microbiome, particularly in the colon, is a genetic reservoir of massive proportions. The microbiota harbors a bacterial metagenome that can range between 500,000 and 2,000,000 bacterial genes (Redfern et al., 2017). This vast microbial genetic richness provides animals with metabolic and biochemical capabilities that exceed those of the host by tens of times. This means that most biochemical transformations occurring in the gastrointestinal tract, and impacting systemic health, are mediated by microorganisms. The bacterial metagenome is fundamental for:
Food is the primary environmental factor shaping the intestinal microbiome in dogs and cats. The composition and variety of the diet determine the availability of substrates for microorganisms, directly influencing the structure of the microbial community (diversity, species abundance) and its metabolic functions.
In dog and cat populations receiving a varied and nutritionally complete diet, including appropriate sources of animal protein, fermentable fibers from multiple origins, and a diverse range of micronutrients, the promotion of eubiosis is observed.
In contrast, monotonous or restrictive diets can predispose dogs and cats to dysbiosis, an imbalance in the intestinal microbial community.
The production of SCFAs, such as butyrate, propionate, and acetate, by gut bacteria is a cornerstone of eubiosis. Butyrate, in particular, is an epigenetic modulator and the primary fuel for colonocytes, strengthening the intestinal barrier and modulating the immune response. Diets rich in fermentable fibers are essential for stimulating the production of these beneficial metabolites. Restrictive or monotonous diets, especially those with low fiber content or poor-quality fibers, can compromise this production, leading to a dysbiotic and pro-inflammatory intestinal environment.
The health and well-being of dogs and cats are inextricably linked to the complex ecosystem of their gut microbiome. The remarkable disparity between the host's gene count and the vast bacterial "supergenome" underscores the predominance of microbial function in animal physiology. Diet, as the primary modulator of this ecosystem, holds the power to guide the microbiome towards a state of eubiosis or dysbiosis.
Diverse diets, rich in appropriate protein sources, fibers, and varied nutrients, promote eubiosis, characterized by high microbial diversity and abundant SCFA production, which translates into optimized metabolic health, robust immunity, and reduced susceptibility to diseases. In contrast, monotonous or restrictive diets, including those lacking meat for obligate carnivores like cats, or kibble-only diets with low ingredient diversity, can induce dysbiosis. This imbalance leads to chronic inflammation, increased intestinal permeability, and a spectrum of metabolic and immunological diseases.
Understanding the genome-metagenome interaction and the critical influence of diet is fundamental for modern veterinary medicine. Professionals must emphasize the importance of nutritional strategies that promote the diversity and balance of the intestinal microbiome to optimize the health and longevity of dogs and cats. Future research should continue to explore the specific interactions between diet types, microbial communities, and health and disease biomarkers in different breeds and life stages of animals.
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Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Eng. Agr.). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
² Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil.
³ Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.
Autor correspondente: Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
Conflito de interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Periódico: Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal.
A doença renal crônica (DRC) é uma das principais causas de morbidade e mortalidade em gatos domésticos, sobretudo em animais geriátricos, caracterizando-se por perda progressiva e irreversível de néfrons funcionais e consequente declínio da taxa de filtração glomerular. As repercussões clínicas incluem azotemia, alterações do metabolismo mineral, distúrbios hidroeletrolíticos e manifestações sistêmicas que comprometem significativamente a qualidade de vida. As intervenções atualmente recomendadas concentram-se em suporte clínico e desaceleração da progressão, com destaque para dieta renal, controle pressórico, manejo de proteinúria e tratamento de complicações. Apesar de essenciais, essas medidas raramente atuam de forma direta sobre mecanismos biológicos centrais associados à progressão, como inflamação persistente e fibrose. Nesse contexto, pesquisas desenvolvidas no Japão vêm investigando a proteína AIM (Apoptosis Inhibitor of Macrophage; também conhecida como CD5L) como alvo terapêutico promissor, devido ao seu papel na depuração de detritos e na modulação de respostas inflamatórias renais. Evidências experimentais demonstram particularidades na ativação da AIM em felinos e sugerem associação com suscetibilidade a doença renal. Além disso, estudos clínicos recentes avaliaram a administração de AIM recombinante em gatos com DRC, apontando potencial benefício clínico, embora a consolidação dessa abordagem dependa de replicação, padronização de protocolos e avaliação de segurança em longo prazo. Este artigo revisa aspectos fisiopatológicos relevantes da DRC felina, sintetiza as estratégias terapêuticas convencionais com base em diretrizes, e discute criticamente a terapia baseada em AIM à luz da literatura científica disponível.
Palavras-chave: doença renal crônica felina; AIM; CD5L; insuficiência renal; terapias inovadoras.
A doença renal crônica (DRC) em felinos é uma síndrome progressiva marcada por alterações estruturais irreversíveis e redução persistente da função renal. Sua alta prevalência em gatos idosos, somada à evolução frequentemente insidiosa, torna a condição um dos maiores desafios da clínica de felinos. Ainda que múltiplas etiologias possam estar envolvidas, a progressão tende a convergir para vias finais comuns de lesão, incluindo inflamação crônica, alterações hemodinâmicas intrarrenais e fibrose túbulo-intersticial.
Do ponto de vista clínico, a DRC pode se manifestar com poliúria/polidipsia, perda de peso, hiporexia, vômitos e letargia, muitas vezes com apresentação tardia, quando a reserva funcional renal já está substancialmente reduzida. Por isso, recomenda-se estadiamento e monitoramento sistemáticos, de modo a direcionar condutas terapêuticas e prever prognóstico. As diretrizes da International Renal Interest Society (IRIS) são amplamente utilizadas como referência para estadiamento e recomendações de manejo, apoiando a tomada de decisão clínica e o acompanhamento longitudinal.
Apesar da efetividade do manejo convencional para estabilização e melhora de qualidade de vida, persiste uma lacuna terapêutica: a ausência de intervenções amplamente disponíveis e comprovadas que modifiquem de modo direto e consistente os mecanismos patológicos subjacentes à progressão. Nesse cenário, pesquisas conduzidas no Japão têm destacado a proteína AIM (Apoptosis Inhibitor of Macrophage/CD5L) como componente potencialmente relevante para a suscetibilidade felina à doença renal e como alvo para desenvolvimento terapêutico, abrindo perspectiva para estratégias além do suporte clínico tradicional.
A DRC decorre de lesões renais cumulativas e/ou persistentes que evoluem para perda de néfrons e remodelamento do parênquima renal. Independentemente do insulto inicial, a progressão tende a envolver mecanismos comuns, como inflamação persistente, hipóxia, lesão tubular e glomerular, com consequente deposição de matriz extracelular e fibrose.
Entre os eventos fisiopatológicos frequentemente associados, destacam-se:
Dentro do campo dos alvos terapêuticos emergentes, evidências experimentais sugerem que gatos apresentam particularidades relacionadas à AIM (CD5L). Em estudo publicado em Scientific Reports, Sugisawa et al. (2016) relataram que a AIM felina permaneceria inativa durante injúria renal aguda, o que poderia comprometer mecanismos de recuperação e aumentar a suscetibilidade à progressão de doença renal. Esse achado oferece plausibilidade biológica para intervenções terapêuticas que busquem restaurar ou suplementar a função efetiva da AIM, especialmente no contexto de depuração de detritos e modulação de inflamação renal.
O manejo da DRC felina é, em geral, de longo prazo e individualizado, orientado por estadiamento e fatores de risco, com foco em reduzir sinais clínicos, prevenir descompensações e retardar progressão.
A dieta terapêutica renal é um dos pilares do manejo. Recomenda-se restrição de fósforo e ajuste de proteínas, mantendo qualidade nutricional e palatabilidade, especialmente em pacientes com perda de peso e apetite reduzido. Diretrizes de consenso reforçam que a intervenção nutricional pode impactar qualidade de vida e evolução clínica, sendo frequentemente indicada a partir de estágios específicos.
Hipertensão sistêmica e proteinúria estão associadas à progressão mais rápida e a complicações. O controle pressórico e o manejo da proteinúria são, portanto, objetivos terapêuticos relevantes, com medicações selecionadas conforme avaliação clínica e monitoramento.
A desidratação é frequente em pacientes com DRC devido à menor capacidade de concentração urinária. A fluidoterapia (incluindo via subcutânea em casos selecionados) e o manejo de náuseas, apetite e distúrbios eletrolíticos são componentes essenciais para estabilidade clínica e adesão ao tratamento.
O acompanhamento de anemia, distúrbios acidobásicos, alterações do fósforo, perdas nutricionais e sinais gastrointestinais é determinante para o bem-estar e para evitar declínio acelerado.
Embora essas medidas tenham benefício clínico bem estabelecido, seu efeito é predominantemente suportivo, com capacidade limitada de interferir diretamente em mecanismos moleculares e celulares centrais relacionados à progressão e fibrose.
A AIM (CD5L) é uma proteína associada a funções de resposta imune e depuração de detritos. A hipótese terapêutica discutida em pesquisas japonesas propõe que a suplementação de AIM funcional poderia favorecer remoção de detritos e modular ambientes inflamatórios renais, com potencial de influenciar progressão de doença renal.
A base experimental para esse racional inclui dados que associam particularidades da AIM felina à maior suscetibilidade à doença renal (SUGISAWA et al., 2016). Além disso, evidência clínica recente avaliou o impacto de AIM recombinante em gatos com DRC. Tezuka et al. (2026) publicaram em The Veterinary Journal um estudo sobre impacto clínico de AIM em DRC felina, sugerindo relevância clínica da intervenção e reforçando o interesse por estudos adicionais.
Apesar do potencial, para caracterizar uma terapia como efetivamente “modificadora de doença” na DRC felina, ainda são necessários:
A DRC felina combina alta prevalência, evolução prolongada e impacto sistêmico, impondo desafios clínicos e econômicos. O manejo convencional permanece indispensável e fundamentado em consensos e diretrizes, com benefício consistente para controle de sinais e estabilidade clínica. Entretanto, o ponto crítico é que grande parte dessas intervenções atua a jusante, mitigando consequências do declínio funcional, enquanto processos como inflamação persistente e fibrose continuam avançando.
A terapia baseada em AIM representa uma mudança de paradigma por propor intervenção em um eixo biológico com plausibilidade mecanística. O estudo de Sugisawa et al. (2016) fornece um suporte importante ao sugerir que a AIM felina pode ser menos efetiva em condições de injúria renal, aumentando risco de progressão. Complementarmente, a publicação clínica em The Veterinary Journal (TEZUKA et al., 2026) indica que a AIM pode ter impacto clínico em contexto de DRC, o que reforça a necessidade de aprofundamento científico.
Ainda assim, a adoção clínica ampla exige cautela. Mesmo resultados promissores podem não se manter quando avaliados em populações maiores, com diferentes comorbidades e variações de estadiamento (IRIS). Além disso, por se tratar de um produto biológico, aspectos como segurança repetida, imunogenicidade, custo e acesso são determinantes para viabilidade no mundo real. Também é essencial que os desfechos escolhidos em pesquisas reflitam ganhos clínicos relevantes, e não apenas alterações pontuais de biomarcadores.
Portanto, a AIM deve ser compreendida como uma linha promissora e em consolidação, com potencial de ampliar o arsenal terapêutico, mas não como substituto do manejo convencional baseado em diretrizes — ao menos até que evidências adicionais definam sua aplicabilidade, janela terapêutica e impacto consistente em desfechos clínicos.
A doença renal crônica felina permanece como importante desafio na medicina veterinária por sua alta frequência em gatos idosos, progressão irreversível e repercussões sistêmicas que afetam diretamente qualidade de vida e sobrevida. Diretrizes e consensos sustentam um manejo clínico efetivo para estabilização e controle de complicações, baseado principalmente em intervenção nutricional, controle de hipertensão e proteinúria, manutenção de hidratação e suporte a alterações metabólicas e gastrointestinais. Contudo, tais estratégias, embora indispensáveis, são predominantemente suportivas e apresentam limitações para interferir diretamente nos mecanismos patogênicos que impulsionam a progressão, como inflamação persistente e fibrose renal.
As pesquisas desenvolvidas no Japão em torno da proteína AIM (CD5L) fornecem uma perspectiva inovadora ao apontar particularidades da AIM felina associadas à suscetibilidade a doença renal e ao sugerir que a suplementação de AIM recombinante pode ter impacto clínico em gatos com DRC. Ainda que os achados disponíveis sustentem plausibilidade e relevância, a consolidação dessa abordagem requer estudos clínicos adicionais, com delineamento robusto, avaliação de segurança em longo prazo, padronização de protocolos e demonstração consistente de desfechos clinicamente significativos. Caso esses requisitos sejam atendidos, a AIM poderá representar um avanço relevante rumo a terapias com maior potencial de modificar a história natural da DRC felina, complementando — e não substituindo — o manejo convencional baseado em diretrizes.
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**Cláudio Amichetti Júnior, DVM, MSc-equivalent (Integrative Veterinary Medicine)**¹,²
Gabriel Amichetti, DVM³
¹ Integrative Veterinarian – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Agronomist Engineer). Specialist in Feline and Canine Nutrition, Cannabinoid Medicine, and Natural Feeding, Petclube. Over 40 years of hands-on experience dedicated to felines and bull-type dogs, focusing on dietary transition and development of well-being protocols.
² Petclube Institutional Affiliation, São Paulo, Brazil.
³ Veterinarian – CRMV-SP 45.592 VT. Specialization in Orthopedics and Small Animal Surgery – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brazil.
Corresponding author: Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
Conflict of interest: The authors declare no conflict of interest.
Journal: Petclube – Science, Genetics and Animal Welfare.
Chronic kidney disease (CKD) is one of the most relevant conditions in domestic cats, especially in geriatric patients, due to its high prevalence, progressive nature, and systemic consequences. CKD is characterized by gradual and irreversible loss of functional nephrons, resulting in declining glomerular filtration rate, azotemia, mineral and electrolyte imbalances, and clinical signs that significantly impair quality of life. Current therapeutic management is largely conservative and aims to slow progression and control complications, with emphasis on renal diets, blood pressure control, management of proteinuria, hydration support, and treatment of associated clinical syndromes. Although these measures are essential and beneficial, they generally do not directly target key biological drivers of progression such as persistent inflammation and renal fibrosis. In this context, research developed in Japan has investigated Apoptosis Inhibitor of Macrophage (AIM), also known as CD5L, as a promising therapeutic target due to its role in debris clearance and modulation of inflammatory responses. Experimental evidence indicates species-specific features of feline AIM that may contribute to renal vulnerability, and recent clinical data have assessed recombinant AIM administration in cats with CKD, suggesting potential clinical benefit. However, broader adoption requires further validation, protocol standardization, and long-term safety assessment. This article reviews relevant aspects of feline CKD pathophysiology, summarizes guideline-based conventional management, and critically discusses AIM-based therapy in light of the available scientific literature.
Keywords: feline chronic kidney disease; AIM; CD5L; renal failure; innovative therapies.
Chronic kidney disease (CKD) in cats is a progressive and irreversible syndrome marked by structural renal damage and persistent decline in renal excretory, endocrine, and regulatory functions. Its clinical relevance stems from its high frequency in older cats, the often insidious onset of early-stage disease, and the systemic impact associated with renal functional loss, including disturbances in mineral metabolism, acid–base balance, body condition, hydration, and gastrointestinal function.
In clinical practice, diagnosis, staging, and management are commonly guided by widely adopted frameworks, particularly those provided by the International Renal Interest Society (IRIS). These guidelines support longitudinal monitoring and risk stratification, helping clinicians tailor interventions such as nutritional management, blood pressure control, and proteinuria management to improve outcomes.
Despite progress in standardizing care, conventional treatment remains largely supportive, aiming to stabilize clinical status and slow progression rather than to reverse the underlying pathology. For this reason, therapies with potential to target core pathogenic mechanisms—rather than only downstream consequences—are of high scientific and clinical interest. In this setting, Japanese research has highlighted Apoptosis Inhibitor of Macrophage (AIM/CD5L) as a biologically plausible contributor to feline susceptibility to renal disease and as a potential therapeutic avenue beyond traditional supportive measures.
CKD results from cumulative and/or persistent renal injury leading to nephron loss and progressive parenchymal remodeling. While the initiating cause is frequently multifactorial or not identified in routine clinical settings, progression often converges on shared pathways, including persistent inflammation, intrarenal hemodynamic alterations, tubular and glomerular injury, and extracellular matrix deposition culminating in fibrosis.
Commonly involved pathophysiologic processes include:
Within the field of emerging targets, experimental evidence has focused on feline AIM (CD5L). A study in Scientific Reports suggested that feline AIM remains inactive during acute kidney injury, potentially impairing recovery mechanisms and increasing susceptibility to progression toward chronic renal disease (SUGISAWA et al., 2016). This provides biological plausibility for interventions intended to restore or supplement effective AIM activity, particularly regarding debris clearance and modulation of inflammatory renal microenvironments.
Feline CKD management is typically long-term and individualized, guided by staging and risk factors, with the primary goals of improving clinical signs, preventing decompensation, and slowing progression.
Renal therapeutic diets are a cornerstone of CKD care. Phosphorus restriction and appropriate protein adjustment, while maintaining nutritional adequacy and palatability, are commonly recommended, especially as disease advances. Consensus guidelines emphasize nutrition as a key intervention influencing quality of life and clinical stability.
Systemic hypertension and proteinuria are associated with faster progression and target-organ damage. Therefore, blood pressure control and proteinuria management are important therapeutic objectives, with drug selection and monitoring tailored to the individual patient.
Dehydration is common in cats with CKD due to impaired urine concentrating ability. Hydration support (including subcutaneous fluids in selected cases) and management of nausea, appetite, and electrolyte disturbances are essential to maintain clinical stability and treatment adherence.
Ongoing monitoring and treatment of anemia, acid–base disorders, mineral metabolism disturbances, nutritional losses, and gastrointestinal signs are central to preserving well-being and preventing accelerated decline.
Overall, guideline-based care is essential and effective for stabilization; however, it remains largely supportive, with limited ability to directly modify the cellular and molecular drivers of progression and fibrosis.
AIM (CD5L) is a protein linked to immune-related functions and debris clearance. The therapeutic hypothesis explored in Japan proposes that supplementation with functional AIM could enhance clearance of debris and modulate inflammatory renal environments, potentially influencing the course of renal disease.
Experimental data supporting this rationale include findings connecting feline AIM features to renal disease susceptibility (SUGISAWA et al., 2016). In addition, a recent clinical publication evaluated the clinical impact of recombinant AIM in cats with CKD. Tezuka et al. (2026) reported outcomes consistent with clinical relevance of this intervention in advanced feline CKD, further supporting the need for continued investigation.
Nevertheless, to establish this approach as a disease-modifying therapy in feline CKD, further work is needed, including:
Feline CKD combines high prevalence, long disease course, and systemic impact, creating ongoing clinical and economic challenges. Conventional management remains indispensable and is supported by consensus guidelines, providing consistent benefit for symptom control and stability. However, a central limitation is that many interventions act downstream, mitigating consequences of functional decline while processes such as persistent inflammation and fibrosis continue to advance.
AIM-based therapy is of particular interest because it targets a biologically plausible mechanism. The work by Sugisawa et al. (2016) supports the hypothesis that feline AIM behavior may contribute to renal vulnerability. The more recent clinical publication in The Veterinary Journal (TEZUKA et al., 2026) suggests that AIM may have measurable clinical impact in feline CKD, warranting further robust study designs and careful interpretation.
Clinical adoption, however, requires caution. Even promising results may not replicate across larger, diverse populations with different comorbidities and IRIS stages. As a biologic, recombinant AIM also raises practical questions regarding repeated-use safety, immunogenicity, cost, and accessibility. Finally, research should prioritize outcomes that matter clinically—beyond isolated biomarker changes—such as quality of life, functional stability, and meaningful survival benefits.
Therefore, AIM should be considered a promising but still developing therapeutic direction that may eventually expand the treatment arsenal, while guideline-based supportive management remains foundational.
Feline chronic kidney disease remains a major challenge in veterinary medicine due to its high prevalence in older cats, irreversible progression, and systemic consequences that significantly affect quality of life and survival. Guideline- and consensus-based clinical management—including renal nutrition, blood pressure and proteinuria control, hydration support, and complication management—is essential and consistently beneficial for stabilization. However, these strategies are largely supportive and have limited capacity to directly interfere with central pathogenic drivers such as persistent inflammation and renal fibrosis.
Japanese research focusing on AIM (CD5L) offers an innovative perspective by identifying species-specific features of feline AIM associated with renal disease susceptibility and by suggesting that supplementation with recombinant AIM may have clinical impact in cats with CKD. While the available experimental and clinical evidence supports biological plausibility and scientific relevance, wider clinical implementation depends on further robust trials, standardized protocols, and comprehensive long-term safety evaluation. If future studies confirm consistent and clinically meaningful benefits, AIM-based approaches may represent a significant step toward therapies with greater potential to modify the natural history of feline CKD, complementing—rather than replacing—current guideline-based supportive care.
INTERNATIONAL RENAL INTEREST SOCIETY (IRIS). IRIS guidelines. [S. l.], [s. d.]. Available at: https://www.iris-kidney.com/iris-guidelines-1. Access on: 26 Feb. 2026.
INTERNATIONAL RENAL INTEREST SOCIETY (IRIS). IRIS staging system. [S. l.], [s. d.]. Available at: https://www.iris-kidney.com/iris-staging-system. Access on: 26 Feb. 2026.
SPARKES, Andrew H.; CANEY, Sarah; CHALHOUB, Serge; ELLIOTT, Jonathan; FINCH, Natalie; GAJANAYAKE, Isuru; LANGSTON, Catherine; LEFEBVRE, Hervé P.; WHITE, Joanna; QUIMBY, Jessica. ISFM consensus guidelines on the diagnosis and management of feline chronic kidney disease. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 18, n. 3, p. 219–239, 2016. DOI: 10.1177/1098612X16631234. Available at: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26936494/. Access on: 26 Feb. 2026.
SUGISAWA, Ryoichi; HIRAMOTO, Eri; MATSUMOTO, Akiko; SAKURAI, Toshihito; KUDO, Kai; TAKEHARA, Hideyuki; MORIOKA, Masanobu; IKEDA, Kazutaka; IKEDA, Takashi; ARAI, Shohei. Impact of feline AIM on the susceptibility of cats to renal disease. Scientific Reports, v. 6, art. 35251, 12 Oct. 2016. DOI: 10.1038/srep35251. Available at: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27731392/. Access on: 26 Feb. 2026.
TEZUKA, Tetsushi; ARAKAWA, Hiroyuki; KUDO, Kai; TAKEHARA, Hideyuki; MORIOKA, Masanobu; IKEDA, Kazutaka; IKEDA, Takashi. A clinical impact of apoptosis inhibitor of macrophage on feline chronic kidney disease. The Veterinary Journal, v. 315, p. 106545, 2026. Available at: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485732/. Access on: 26 Feb. 2026.